Conferência Assexual 2020: Saúde Mental

UK Asexuality Conference 2020Aces & Mental Health (Aces e Saúde Mental)

Por Kira L.

Revisão: Ravi Pires

Para acessar o texto em pdf, clique neste link.


Beth (ela/dela – moderadora) introduz e dá boas vindas, explica o sistema de perguntas via SliDo, cuja responsável moderadora é a Carol. Introduz e explica que os 4 convidados vão se apresentar e depois irão para perguntas.

Jo Russel (ela/dela): provavelmente sou a pessoa mais velha daqui, estou no fim dos meus 50. Morei e trabalhei em Glasgow na Escócia desde 1989, mesmo sendo inglesa de nascença. Descobri o nome assexual pela primeira vez nos meu 47 anos; depois foram 3 anos até eu conhecer outra pessoa assexual. Eu me identifico como assexual mas ainda estou descobrindo outros aspectos da minha identidade.

Eu cresci numa época onde todo mundo era cisgênero e heterossexual, e qualquer outra coisa era ilegal, ou no mínimo indecente.

Eu tive uma crise e fui diagnosticada com depressão vinte anos atrás. Trabalhei como terapeuta autônoma.

O primeiro terapeuta que eu vi, depois de conhecer a assexualidade, não era competente para trabalhar com isso e me confundiu. Então perguntei por aí, achei alguém que era competente e fez tanta diferença pra mim. Eu diria que um quarto dos meus clientes atuais se identificam como assexual. Majoritariamente tive experiências ruins com psicólogos.

Fiz um treino especializado com um grupo chamado Pink Therapy, e sou especializada para trabalhar com clientes GSRD (gender, sexual and relational diversity), o acrônimo que usamos agora em círculos de psicologia para falar de pessoas LGBTQ+. Eu ajudo a treinar outros terapeutas para isso.

E ofereço um curso com o Pink Therapy sobre como trabalhar com pessoas que estejam pedindo para mudarem suas sexualidades, ou o que chamamos de terapia de conversão. Esse é um interesse pessoal meu.

Talvez vocês estejam cientes que o governo do UK publicou uma pesquisa em julho de 2018 sobre a vida no UK como uma pessoa LGBTQ, o que mostra estatísticas de pessoas que foram oferecidas ou submetidas a terapia de conversão. E surpreendentemente, pessoas gay e lésbicas, mais ou menos 7.6% disseram que foram oferecidos essa “mudança”. 10,2% pessoas assexuais, número muito mais alto que pra qualquer outra identidade. E para pessoas trans 12,6% que reportaram tentativas de mudarem as identidades deles.

Uma coisa chamada Memorando de Entendimento (ou MOU, do inglês, Memorandum Of Understanding) sobre Terapia de Conversão entrou para uma mesa de discussão no departamento de saúde do governo, estavam perguntando se a terapia de conversão era realmente um problema.

Um MOU foi oficializado dizendo que terapia de conversão é antiética e não saudável e provavelmente muito ineficaz. O primeiro MOU apenas protegia pessoas LGB, então um segundo foi produzido em 2018 e assinado pela maioria das organizações/comunidades psicóloga do UK. Esse segundo incluía a assexualidade e pessoas trans.

Isso é particularmente relevante neste momento porque na próxima sessão de parlamento o governo planeja banir legalmente a terapia de conversão de quiser maneira. A MOU também diz que organizações têm uma responsabilidade de verificar que profissionais estejam cientes dos problemas éticos da terapia de conversão e de que novos profissionais sejam propriamente treinados para saber isso. Eu pessoalmente estou envolvida em treinar pessoas a entender os perigos disso e para que psicólogos saibam ao menos que a assexualidade existe.

Eu digo que é relevante porque o governo pretende banir terapias de conversão, mas parecem estar trabalhando sob o primeiro MOU, que não inclui identidades trans e assexuais. Então no momento precisamos nos movimentar para dizer ao governo que incluam essas identidades na proibição e eu ficaria feliz de juntar informações sobre o assunto se for útil. [finaliza e chama Beth de volta]

Beth agradece e diz que também gostaria de ser psicóloga e que é grata e inspirada pelo trabalho de Jo. Chama o próximo convidado.

Barefoot Backpacker/Ian (ele/dele): eu sou outro ace raro, um dos mais velhos, eu fiz 45 mês passado. Eu sou britânico, assexual, possivelmente arromântico, ainda descobrindo essa.

Eu sou analista, mas também produz um podcast quase semanal sobre viagens, história, política e cultural, onde falo também um pouco sobre assexualidade e saúde mental. São tópicos que não definem quem eu sou, mas definitivamente são aspectos importantes da minha vida.

Eu fui uma daquelas criança prodígio que você ouve sobre bastante, e um filho único também, então muita pressão em mim para fazer “o máximo com o meu potencial”, como dizem, assim como seguir pela vida heteronormativa normal, vocês sabem, ter uma carreira, casar, ter filhos, etc..

Em perspectiva, eu sempre soube que era diferente, sexualmente falando. Quando era adolescente eu me destacava como diferente dos meus colegas; eu estudei em uma escola só para garotos e eles claro sempre falando sobre namoradas, tinham aqueles pôsteres de artistas que eles gostavam e eu não tinha nada disso.

Eu não me achava particularmente estranho, mas eles sim. Como vocês podem imaginar adolescentes não perdoam muito; muitos dos meus problemas com saúde mental vieram dessa época, porque eu era visto como diferente e estranho, o que levou a coisas como ansiedade social, auto estima baixa, síndrome do impostor, depressão e… disfunção executiva, entre outras coisas, e possivelmente também TDAH.

Eu viajo muito, eu cresci viajando ao redor do mundo, e costumo ir por caminhos fora dos comuns e isso afeta minha saúde mental porque eu gosto de ficar ali sozinho, então se me encontro numa situação difícil eu estou ali sem nenhum apoio emocional, especialmente porque eu sou assexual eu acabo viajando sozinho de qualquer maneira. E tive problemas como esse em que só voltei para casa porque não consegui lidar sozinho mentalmente sobre estar lá e ter essas experiências porque… coisas simples que eu não consigo fazer, ir em lojas, fazer ligações, imagine quão pior é fazer isso numa língua estrangeira porque você faz um erro e você acha que as pessoas dirão “olha é um estrangeiro, como ele é engraçado, ele não fala como nós”.

O que eu entendo com isso é que é importante para mim ter um grupo de amigos que são capazes de conectarem comigo nesses momentos, e essas pessoas aceitarem minha assexualidade significa que essa conexão é ainda mais forte. Há outro aspecto que é eu ser mais velho que a média dos assexuais, e a assexualidade não é muito conhecida e entendida entre nós [mais velhos], tendemos a nos fechar de forma similar que homens gays fizeram em décadas anteriores. Obviamente isso leva a problemas de saúde mental porque nós nos forçamos nesse caminho de heteronormatividade, nós nos desapontados nos nossos relacionamentos e acabamos questionando nossas vidas inteiras – lembre que claro que um das taxas mais altos de suicídio são pessoas como eu, homens nos seus 40 anos, e ter que esconder sua sexualidade colabora com isso. Também somos menos prováveis de ir atrás de ajuda, especialmente quanto a saúde mental porque… bom porque não queremos causar um drama, nós achamos que são problemas de pessoas jovens, e “por que você não resolveu isso 20 anos atrás?”, pelo menos é como achamos será a reação de psicólogos, especialmente quando nos assumimos como assexuais e recebemos comentários como, não deles necessariamente mas da sociedade, “ah você só é gay” e coisa assim.

E num total, o resultado desses três aspectos da minha vida – viagens, assexualidade e saúde mental – tudo se resume em uma única frase de “quando você vai sossegar”.

Coisas que aliviam meu stress incluem ouvir música, que é, bom, uma atividade solitária, eu escrevo histórias onde personagens assexuais e personagens com problemas de saúde mental se encontram, e vou andar sozinho, geralmente descalço porque me ajuda a me acalmar.

Conexão corta e volta pra Beth, ela congratula Ian por conseguir navegar entre as dificuldades que ele enfrentou e como aprendeu com elas. Ela introduz a próxima pessoa.

Rebecca (ela/dela): eu tenho 26 anos e eu sou de Toronto, Canadá. Eu me considero defensora de causas de saúde mental e a interseccionalidade entre assexualidade e saúde mental é particularmente importante pra mim, porque eu me identifico como estando no espectro aro e ace e já enfrentei depressão, ansiedade e possivelmente stress pós traumático.

Causas de saúde mental sempre foram uma paixão minha, mesmo já no ensino médio, mas eu diria que me encontrei de volta em 2013 quando decidi criar “Arts Ceiling Hearts”, uma organização de caridade que leva arte à pacientes em hospitais. Por um pouco mais de 6 anos, não apenas eu tive essa sorte de poder usar a minha paixão de forma em que pude ajudar outros, mas também pude ver um pouco do nosso sistemas de saúde mental, algo que não conseguimos geralmente a não ser que nós, ou alguém próximo a nós, vire um paciente.

Eu passei muito tempo entre muitos tipos diferentes de funcionários de hospitais e também conhecer e conversar com pacientes enfrentando muitos desafios de saúde tanto física quanto mental. Me familiarizei com hospitais ao ponto de me sentir confortável nesse ambiente, minhas experiências quebraram certos estereótipos que eu tinha sobre a realidade de ser um paciente, de estar doente e ter de estar hospitalizado. Me fez sentir segura e confortável o suficiente que eu não mais tinha medo ou julgava mal quando eu precisava buscar auxílio médico pela minha própria saúde mental, e me deu habilidades para ser uma defensora melhor dessa causa tanto pelos outros quanto por mim mesma.

Pelos últimos 2 anos, no entanto, eu mudei meu foco e agora a maior parte do meu trabalho centra em causa de saúde mental especificamente. Isso foi motivado pelas minhas próprias experiências, sendo diagnosticada com depressão e ansiedade em 2018, e ter que aprender a navegar sua vida com doenças mentais diagnosticadas sem nem mencionar todo o caos de navegar o sistema do tratamento de saúde mental. Apesar de ser diagnosticada apenas recentemente, saúde mental foi um desafio pra mim por muito tempo, provavelmente desde a infância… naquela época eu simplesmente não tinha a capacidade de ir atrás de ajuda, ou sequer deixar alguém da minha vida saber que eu estava mal. Acho que eu tinha medo de ser punida por não conseguir lidar com as coisas sozinha, que os outros me julgariam por precisar de ajuda, ou pior ainda que me ignorariam por não acreditarem em mim, que me diriam que eu estava bem porque eu ainda estava levantando da cama e indo pra escola. Isso foi nos meus 13 anos.

Não foi até muitos anos depois que eu vi pessoas que eu admirava falando sobre as próprias experiências com doenças mentais que eu realmente me senti bem em pensar que talvez eu não estivesse tão bem quanto eu achava que estava. Eles me ajudaram a quebrar essa ideia errada de que se você está aparentemente funcional na sua vida, você não poderia estar depressiva, ansiosa ou lidando com uma saúde mental ruim no geral. Eu não sabia que não era pra vida ser difícil desse jeito, então essas pessoas me ajudaram a ver que eu precisava e podia buscar ajuda.

Eu sei que é comum das pessoas não discutirem sua saúde mental, mesmo sendo mais aceito hoje ainda há muito estigma e estereótipos sobre ter uma doença mental, assim como também sobre ter uma sexualidade que está no espectro assexual. Mas pra mim é muito importante não me deixar silenciar sobre minhas experiências, ao invés disso eu escolho compartilhá-las porque eu quero ser alguém que ajuda normalizar ambas doenças mentais e assexualidade, e deixar que outras pessoas saibam que suas experiências e identidades são válidas.

Mesmo que eu tenha limites e não vou falar sobre tudo, eu tenho plena consciência de como outras pessoas compartilharem suas experiências me impactaram e como eu tenho o potencial de impactar outros da mesma forma. Eu acho que conversas como essa são tão importantes e eu estou tão feliz de estar aqui e ter a oportunidade de falar com vocês hoje. [Ela agradece à conferência pela participação, diz que espera pelas perguntas e fecha]

Volta para Beth que agradece Rebecca e comenta um pouco sobre a experiência dela com o sistema de saúde do Canadá e quão fechado e complicado costuma ser, que às vezes faz as pessoas se questionarem e se sentirem sozinhas. Ela agradece Rebecca pelo trabalho dela advogando por saúde mental e introduz a última participante.

Ria (she/her): eu tenho 25 anos, sou das Filipinas e sou assexual e arromântica. Eu sou uma representante da campanha “Ace the Media”, que é destinada a educar, criar e promover conteúdos aspec.

Meu relacionamento com saúde mental é muito pessoal, eu fui diagnosticada 4 anos atrás com depressão e ansiedade e tomo medicação assim como regularmente faço terapia psicológica; eu tenho experiência na ala psiquiátrica, tentando várias medicações diferentes e falando com muitos profissionais. Passei a maioria do tempo com psiquiatras – aqui no meu país, Filipinas, a maioria dos psiquiatras também são terapeutas, assim como a minha psiquiatra atual.

No assunto de como a minha assexualidade afeta a minha saúde mental… eu não me abri sobre a minha assexualidade com nenhum profissional da saúde, já mencionei algumas coisas mas nunca realmente me assumi como assexual arromântica. Mesmo assim não notei nenhuma reação negativa, e pode ser porque eu só falei com psiquiatras que foram recomendados pra mim, então eu sei que eles são bons e que têm bons relacionamentos com os pacientes deles.

Quanto à minha jornada com saúde mental, é bem pessoal, eu foco mais em mim mesma, tentando melhorar, mas desde o ano passado procurei mais sobre advocacia e conscientização sobre saúde mental. Mesmo sendo parte campanha Ace the Media, eu só comecei a participar realmente de um ativismo recentemente, tanto com assexualidade quanto com saúde mental. Antes disso eu mais apoiava outras iniciativas, mas recentemente estou tentando ser mais proativa, me voluntariando e aprendendo mais sobre ambos.

Ainda estou tentando aprender mais e fazer mais pela comunidade, e espero que no futuro eu possa dizer que realmente apoiei a comunidade, seja compartilhando ou criando mais conteúdo, ou só apoiando pessoas da comunidade.

Ela agradece e volta pra Beth. Beth concorda com o potencial da Ria e diz que acredita que ela vai causar um impacto muito positivo. Beth introduz o próximo segmento: as perguntas feitas na plataforma SliDo (as pessoas também podem votar nas perguntas que se interessarem pra dar mais atenção a elas) e começa a apresentar as perguntas.

Você decidiu se assumir para pessoas envolvidas no seu tratamento de doenças mentais e por quê? Se você se assumiu, como foi a experiência com esses profissionais da saúde?”

(Beth diz que mesmo eles já tendo comentado um pouco disso pra eles aprofundarem mais no assunto)

Jo: bom, eu já contei como me assumi para um terapeuta que não conhecia a assexualidade e então eu segui para outro. Tenho muita sorte que a minha [médica] clínica geral gosta muito de aprender, eu me assumi pra ela e ela está sempre feliz de aprender sobre assexualidade comigo. Mas também uma supervisora minha me patologizou uma vez, então é bem inconsistente,mesmo pessoas que estão com você por todo o processo de se assumir um dia também podem falar “mas você não acha…” e eu só digo “não, não acho”.

Beth agradece e passa pro Ian.

Ian: eu não costumo falar sobre isso com profissionais como clínicos gerais porque elas viram constrangedoras. Eu tenho outros amigos que são queer e eles tem problemas falando sobre isso com os médicos deles e eu não me sinto muito confortável discutindo isso num nível profissional. Fico feliz de ser assumido, mas não assumido assumido.

Beth: faz sentido, não é o foco da sua jornada com saúde mental. [Ela agradece e segue para Rebecca]

Rebecca: é, eu diria que sou assumida para todos os profissionais da saúde com quem eu me trato desde que me descobri como assexual e acho que as respostas variaram bastante: alguns foram prestativos e simpáticos, mesmo quando nem sabiam sobre assexualidade e descobriram através de mim foram receptivos; mas também tive aquelas pessoas do lado oposto, um terapeuta me perguntou deliberadamente “mas isso não é o motivo de você estar na terapia?”. É uma dessas coisas que não são super conhecidas ainda e por conta disso você tem muitas respostas variadas, e na maioria do tempo você realmente precisa explicar sua identidade e dar quase uma Ted Talk, e é o jeito.

Beth concorda e diz que é uma pena ter que passar por essa situação.

Ria: eu mencionei um pouco na minha introdução, eu não sou completamente assumida pra minha psicóloga, mas já comentei coisas como eu não estar interessada em relacionamentos, ou em me casar, esse tipo de coisa. As respostas foram majoritariamente positivas, acho que ela não me entendeu direito inicialmente, achava que eu estava só focando muito nos meus outros problemas. Acho que o grande motivo que eu não me assumi ainda pra ela é que não estou preparada pra ter A Conversa/Ted Talk com ela e não tenho certeza qual vai ser a reação dela. Ela parece não ter problemas com pessoas LGBT, eu mencionei uma vez que o meu irmão tinha um namorado e ela não pareceu desconfortável, ela aceitou bem. Acho que me preocupo mais porque eu moro num país bem conservador e mesmo eu atender com ela através de muitas recomendações boas tenho medo que ela não me entenda direito ou não entenda o que é ser assexual.

Beth adiciona que realmente essa parece ser uma experiência comum, que muitas pessoas não entendem e acreditam até ser um problema, quando para nós (assexuais) é algo normal. Ela apresenta a próxima pergunta.

Como você lida com solidão sendo uma pessoa assexual solteira?”

[Jo passa a pergunta]

Ian: pessoalmente eu estive sozinho de uma forma ou de outra pela maior parte da minha vida. Mais ou menos 8 ou 9 anos atrás eu descobri um conceito chamado “Quirky Alone”, que é essa ideia que você não precisa estar em um relacionamento pra estar feliz e devia apenas entrar em um relacionamento com alguém que você se sinta confortável ao invés de só por ter um relacionamento. Bem na maior parte da minha vida a maioria dos meus amigos foram virtuais mesmo, na minha adolescência eu tinha vários “pen pals” (amigos de correspondência), então sempre estive acostumado a estar sozinho e, sim, estou solteiro.

O que é importante pra mim é que meus amigos estejam próximos – não necessariamente fisicamente próximos, mas algo como mentalmente próximos? -, eu tenho muitos amigos virtuais, ainda tenho alguns pen pals, e o que importa pra mim é poder conversar com eles a qualquer momento e a internet é maravilhosa pra isso, porque até às 3 da manhã alguém vai estar acordado, então se eu precisar conversar eu posso só mandar uma mensagem, e é ótimo ter essa proximidade com alguém e isso é mais importante pra mim do que ter um relacionamento ou qualquer coisa física, geograficamente próxima. Prefiro ter essas amizades a ter um… amante, por falta de termo melhor.

Beth diz que é ótimo que ele tenha esse círculo e como é importante esse tipo de comunicação e dá a voz pra Rebecca.

Rebecca: acho que algo como o que o Ian disse, ter um círculo de amigos próximo é muito importante pra mim. Eu tenho muita sorte de ter pessoas na minha vida que realmente me entendem, quase uma família escolhida, acho que me ajuda muito. As duas coisas que mais me ajudaram também foram 1: estar envolvida com a comunidade assexual de alguma forma, seja participando de eventos como esse ou de outras comunidades online, essa chance de poder me conectar com outras pessoas que entendem o que é ser assexual, coisas como os desafios diferentes que nós enfrentamos diferentemente de pessoas alossexuais. A segunda coisa é… sendo assexual eu acho que tenho uma perspectiva diferente sobre relacionamentos, eu não tendo me encaixar nessa norma da sociedade sobre relacionamentos românticos serem melhores ou mais importantes que amizades. Acho que ter esses valores, e saber que tenho esse círculo de amigos próximos, eu nunca me sinto realmente sozinha ou como se estivesse “perdendo” alguma coisa.

Beth comenta que pessoas ace podem ensinar muito pro mundo sobre aprender mais sobre as próprias necessidades e conexões fortes em comunidade.

Ria: acho que isso era um problema pra mim quando eu ainda estava tentando entender o que é ter depressão, porque um dos motivos pra eu estar tão triste ou desmotivada era porque eu sentia que não tinha ninguém do meu lado, e depois de conversar com a minha terapeuta eu entendi que mesmo quando você sente que não tem ninguém pra te apoiar, isso não é necessariamente a verdade… você pode sentir que não tem ninguém que entendem pelo que você está passando, mas mesmo que eles não entendam se você tomar essa iniciativa para estabelecer e manter uma conexão você se sente menos sozinho.

Pra mim, uma das coisas mais importantes da minha vida… foi muito difícil quando minha depressão começou porque eu não sabia pra onde ir e eu sentia que não tinha ninguém com quem eu podia conversar, mas eu trabalhei muito em ficar melhor e discuti esses problemas e finalmente senti que há pessoas que estão dispostas a criar essa conexão se você estiver disposto a se abrir… às vezes você precisa fazer um esforço para manter essa conexão, então quando eu começo a me sentir sozinho eu só preciso mandar mensagem pros meus amigos, ou então eu falo com a minha família. Se você trabalha nessas conexões, você não vai se sentir mais tão sozinho.

Beth agradece e diz que a resposta dela na verdade também já responde a próxima pergunta.

Como a sua assexualidade limita sua capacidade de se conectar com amizades, familiares, etc que são alossexuais? Vocês tem algum conselho sobre como navegar isso?”

Jo: essa é complicada, porque todo mundo é diferente. Pra mim, às vezes me sinto deixada de fora, porque há essa ideia na sociedade que diz que relações sexuais – ou relações aparentemente sexuais – são mais importantes, então quando amigos se casam ou estão saindo com alguém, eu costumo sentir que preciso me afastar e deixar eles terem tempo sozinho… que é algo que eu internalizei e preciso trabalhar comigo mesma. Às vezes com amigos ou família eu não me sinto muito compreendida, a reação de dizer que às pessoas que você é assexual geralmente é bem desapontadora, algo meio “ah, ok, tanto faz”, e isso não ajuda muito. Então eu tenho que decidir e escolher as minhas batalhas quando se trata de educar as pessoas sobre o que isso significa, e o que significa pra mim; mas também há momentos em que eu não estou me sentindo resiliente suficiente pra isso, preciso cuidar de mim, me afastar e deixar pra lá.

Então acho que pra mim é sobre saber como eu estou, e quão resiliente eu estou me sentindo no momento, se eu quero ter que educar as pessoas ou se vou só rolar os olhos e deixar pra lá.

Beth concorda que é importante, quando se é parte de uma minoria, aprender esses limites todo dia.

Ian: a maioria das minhas amizades é alossexual, bom eu sou sex-averse, mas também sou sex-positive então não tenho tantos problemas quanto a isso. O que eu descobri é que a maioria das pessoas com quem eu tenho conexões são ou aliadas ou são parte da comunidade LGBT+ [o vídeo picota]… Eu estava dizendo que me conecto mais com mulheres do que homens porque – bem, não a minha mãe, que pergunta “quando você vai sossegar?” direto, até demais – mas… eu estava falando do videoclipe de Single Ladies da Beyoncé e os meus colegas de trabalho estavam maravilhados, “que mulheres lindas”, e eu estava só pensando “são só umas mulheres dançando”, eu não entendo esse sentimento, e a maioria dos homens com que tive amizade eram bem abertamente sexuais e eu nunca consigo entender.

Beth pede desculpas pelos problemas técnicos e agradece o relato.

Rebecca: eu diria com certeza que ser assexual impacta minha capacidade de entender familiares, amigos, etc alossexuais, e acho que é por causa do que o Ian estava comentando que mesmo as pessoas que te aceitam e apoiam nem sempre entendem porque elas não têm as mesmas experiências, assim como eu não entendo a experiência alossexual e como é ter suas relações românticas e sexuais como mais importantes e coisas assim que são algo em comum para muitas pessoas mas não pra assexuais. O melhor jeito que eu achei pra navegar esse sentimento, ainda é um trabalho em progresso mas, acho que comunicação é muito importante, ser capaz de se expressar, especialmente se é algo que é relevante pros seus relacionamentos, ter a possibilidade de ter essas conversas… porque eu sei que esse tipo de conversa causa bastante ansiedade, mas a comunicação é o único jeito que temos pra entender nossas diferenças e nos aceitarmos, mesmo quando não se entende completamente as experiências do outro.

Ria: eu apenas recentemente me assumi pros meus amigos como assexual, então por um tempo eu não conseguia bem, não é que eu não conseguia me conectar com eles, mas algo se perdia na conversa porque eu não podia compartilhar os meus sentimentos e pensamentos reais sobre o assunto, além de elementos que eu não conseguia entender. Mas ver quão receptivos eles foram aprendendo sobre a assexualidade, então se eu acho que tem um espaço entre as nossas experiências e o meu entendimento da conversa…. eu vejo quão abertos eles estavam pra aprender, mas às vezes não vale a pena pra mim tentar explicar se eu sei que eles não vão entender, eu sei que tem outros relacionamentos onde eu posso fazer isso.

Vocês tem algum conselho sobre como lidar com apagamento assexual e afobia?”

Jo: como eu disse da última vez, às vezes é um caso, pra mim, de escolher suas batalhas e às vezes ignorar a coisa toda. O problema é quando são vozes externas tentando nos apagar ou estão sendo afóbicos, o que podemos fazer, se não tomarmos cuidados, é acabar internalizando essas vozes e isso se torna uma parte de nós, e se isso acontecesse nós achamos que é verdade. O que eu acho importante é ter outras pessoas ao meu redor que sabem a minha verdade – eu existo, eu estou aqui, eu não posso ser apagada, que a assexualidade merece ser respeitada e entendida – e que podem me dar apoio, que podem me ajudar a não internalizar essas vozes que tentam nos apagar.

Ian: bom, essa é complicada… uma das coisas que eu notei nas minhas viagens é, obviamente, coisas como homofobia e bifobia são muito mais aparentes, há leis contra “praticar homossexualidade” em alguns países, há leis que proíbem dividir um quarto com alguém, como eu posso dizer, “do gênero errado”. Mas pra assexualidade.. não há leis contra isso, não se pode ser abertamente acefóbico da mesma forma… você não está lutando algo que é visível, é como dizer “prova que você não tem uma irmã”, então a acefobia é mais mental, está mais na atitude, na associação de “não, o que você realmente é, é gay e no armário; não, você é heterossexual e ainda não percebeu, não achou a pessoa certa ainda”, esse é o tipo de afobia que eu já enfrentei e eu não sei exatamente como evitá-la porque envolve mudar atitudes fundamentais em pessoas que não entendem porque isso seria problemático, as pessoas sempre esperam que você vai se casar e ter filhos e coisa assim. Então desafiar essa ideia é mais difícil do que falar “oi, eu sou o Ian e esse é o meu namorado, Steven”, é mais difícil desafiar isso porque é fundamental para essas pessoas, pelo menos se eu fosse homossexual eu teria um parceiro pra mostrar.

Como eu encontro um terapeuta competente no assunto da assexualidade?”

Jo: bom, é complicadinho. Eu diria que antes de você ir se encontrar com qualquer terapeuta, se você tem alguma escolha sobre com quem se atender – porque obviamente se você está em algum programa como o NHS (programa de saúde do UK) você vai ser mandado pra um terapeuta e não tem muita escolha -, mas se você tem essa escolha, a primeira coisa que você precisa fazer é conversar com aquele terapeuta seja por email ou telefone e perguntar diretamente “você entende sobre assexualidade?”, “tudo bem eu falar com você sobre assexualidade? porque é parte da minha história, não é sobre o que eu quero conversar (ou talvez seja), mas eu preciso que você possa me entender”. Ou se você quiser recomendações, tem um grupo chamado Pink Therapy, que é baseado em Londres, mas eles tem uma lista de terapeutas por todo o país que estão organizados por suas orientações sexuais, ou identidade de gênero, ou o que for importante pra eles. No meu bloco por exemplo especifica que eu me identifico como assexual, então quem vier pra mim já sabe isso sobre mim. Além disso, nos perfis dos terapeutas eles podem listar as identidades que eles se sentem capacitados para trabalhar – mas mesmo que eles listem a assexualidade eu ainda perguntaria a eles o que eles sabem sobre assexualidade. Eu também coloquei meu email aqui embaixo na tela e vocês podem me mandar email se precisarem de mais informação.

Beth finaliza e anuncia quais os próximos debates.


Tradução por Kira Laine

Caso queira utilizar essa tradução, avise por email: aroaceiros@gmail.com


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