Conferência Assexual 2020: Aroaces

UK Asexuality Conference 2020Aro Aces (Aroaces)

Por Kira L.

Revisão: Ravi Pires

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Char (elu/delu) é ê moderadore do painel, elu dá as boas-vindas e introduz o modo de enviar perguntas através do SliDo e convida os participantes a se apresentarem, comentando sobre suas identidades nos espectros ace e aro.

Helen (qualquer pronome): eu sou assexual e arromântique – eu me identifico como ace há uns 10 anos e como aro há uns 6. Eu fui na conferência do ano passado então talvez já conheça alguns de vocês lá, e dessa vez estou num painel, olá!

Sarah (ela/dela): [ela se apresenta com a voz rouca e tosse para voltar a voz] desculpa, é de manhã onde eu estou [risos]. Talvez alguns de vocês conheçam do podcast Sounds Fake But Okay, ou não, tudo bem também. Eu me identifico como assexual arromântica. Eu sou dos EUA, eu sou de Michigan, mas infelizmente agora estou em Los Angeles. E estou aqui para festa [risos].

Snao (elu/delu): eu sou aroace; comecei a me identificar como ace há mais de 5 anos e meio que sempre soube que era arromântique, mas não sabia que existia uma palavra para isso até começar a pesquisar sobre assexuallidade. Eu estou falando do Canadá, também é manhã, mas certamente não tão quente quanto na Califórnia, felizmente.

Milly (ela/elu): eu sou arromântique e assexual, eu soube que era assexual desde os 16 e arromântica desde os 19. Quando eu descobri que era arromântica, entrei como administradora em uma página do instagram chamada @JustAroAceThings, na época nós tinhamos 100 seguidores, e três anos depois nós temos 21 mil. Então, essa foi a minha jornada de descoberta da comunidade Aspec, postando tudo à medida que aprendia, e isso se tornou uma ótima comunidade para visibilidade e aceitação. No momento estou na Bélgica, mas já morei nos Países Baixos (Holanda), no Canadá e na Inglaterra.

Char (elu/delu): eu me descobri aro apenas alguns meses atrás, geralmente só digo que sou aroace,mas gosto mesmo do rótulo super específico de quoirromântico, fez todo o sentido para mim. [Elu abre para perguntas]

Como alguém pode saber que é aro?”

Helen (qualquer pronome): se descobrir aro pode ser mais difícil do que descobrir que você é ace, porque você sabe quando se sente atraído sexualmente ou não, é mais fácil de perceber, mas romance costuma ser mais complicado de entender realmente o que é. Há coisas que algumas pessoas acham que é romântico enquanto para outras não é – por ex, você quer segurar a mão de alguém, ou quer beijar a pessoa, mas você não quer um relacionamento -, então quando você quer certas coisas mas não outras, definir o que é romântico ou não fica complicado. E é por isso que é mais complicado descobrir se você é aro ou não.

Sarah (ela/dela): para pessoas que são tanto aro quanto ace, eu percebi que geralmente, inclusive nas nossas introduções, nós percebemos que somos ace antes de aro, só porque é mais óbvio de “eu não olho para essa pessoa e quero ir para cama com ela”, mas ainda olhamos para uma pessoa e pensamos “eu gosto muito de você, e quero passar mais tempo com você”, e descobrir essa linha entre romântico e platônico é difícil, porque não é tão distinta.

Helen (qualquer pronome): você precisa descobrir onde essa linha muda de um pro outro para você, para poder definir se você é aro mesmo ou não.

Snao (elu/delu): acho que eu sou a exceção na ordem que a Sarah mencionou, porque eu sabia que era aro antes de saber que existia uma palavra para isso. Eu sabia que nunca ia querer um relacionamento, não tinha interesse em ter um parceiro, nunca gostei da ideia de me casar. Demorei mais para descobrir que eu era ace, porque eu sou mais romance-repulsed*, mas não sou sex-repulsed*, porque parece algo mais impessoal para mim. Mas sempre senti aversão a ideia de outras pessoas terem sentimentos românticos por mim, então eu soube isso antes da assexualidade.

Cher chama atenção a alguns comentários de pessoas falando que também souberam que são aro antes de saberem que são ace.

Sarah: é quase como se as pessoas tivessem experiências diferentes e generalizações nunca funcionam (Helen: quem diria? [risos])

Snao: é quase como se nós fossemos muito diversos.

Milly (ela/elu): pessoalmente eu sou bem romance-positive* quanto à mídia, então sempre gostei da ideia de estar em um relacionamento romântico, me casar, essas coisas. Então estar em um relacionamento romântico e perceber que eu não gostava daquilo e que eu sou romance-repulsed* com pessoas agindo com intenções românticas comigo foi a minha maior pista para perceber que eu era arromântique e eu que não gostava das pessoas do jeito que eu achava que gostava, do jeito que a sociedade me forçava a pensar que gostava.

Char (elu/delu): para mim, eu acho que a sociedade me fez pensar que um relacionamento romântico me faria feliz, e eu queria ser feliz. Então, demorei um pouco para eu entender que não realmente queria aquilo para mim, e que eu não tinha sentimentos românticos, eu só tinha sentimentos de companheirismo e felicidade. O que me ajudou a finalmente descobrir isso foi perceber que eu estava dizendo no automático que eu era ace e panrromântique e esperando por uma evidência disso. E aquela frase “é melhor ter amado e perdido do que nunca ter amado”, eu pensava não, não é, porque foi só um monte de desapontamentos e drama e eu ficando triste e a outra pessoa ficando triste porque eu não me sentia do mesmo jeito que ela me se sentia. Eu valorizo meus relacionamentos passado porque aprendi com eles, mas em relação ao peso emocional eu preferia ter pulado toda essa parte.

Você sente que a sua identidade aro ou a sua identidade ace é mais importante para você?”

Helen (qualquer pronome): eu acho que passo por fases de me conectar mais com um rótulo do que com o outro, algumas semanas eu vou estar bem ligade na comunidade ace e depois passo algumas semanas mais ligade na comunidade aro. E claro que tudo bem, porque existe muita justaposição entre elas, mas definitivamente passo por fases em que um ou outro é mais importante para mim e não sei bem porquê.

Sarah (ela/dela): para mim, acho que minha identidade aro é mais importante do que a ace. Embora não é como se eu fosse sair com pessoas só para transar porque não é o meu jeito, mesmo que eu não fosse ace, provavelmente não faria isso porque não é como sou como pessoa. Mas para mim é como se uma seguisse a outra, então porque eu sou aro, não vou me encontrar numa situação em que eu possa ser pressionada a fazer sexo ou algo assim, porque eu não estou procurando esse tipo de relacionamento para começo de conversa, então a arromanticidade é a parte que afeta mais a minha vida. Especialmente porque na sociedade sexo ainda é um tabu, mas falam sobre relações românticas o tempo todo, e as pessoas perguntam sobre isso o tempo todo então eu preciso falar sobre isso mais. As pessoas vão entender se eu disser que não quero falar sobre sexo com elas, mas se eu questionar porque estão me perguntando se eu tenho namorado, elas não entendem isso.

Snao (elu/delu): é algo similar para mim também. Mesmo que as pessoas não conheçam tanto sobre orientações românticas quanto sobre as sexuais… eu não necessariamente falo com todas as palavras, mas eu definitivamente gosto de deixar as pessoas saberem que eu nunca estou procurando por um relacionamento romântico, não me pergunte porquê, não tente tirar isso de mim.

Milly (ela/elu): eu também concordo que ser aro é algo mais diário, enquanto ser ace é mais um tabu, então para mim a minha identidade aro é mais importante que a ace, mas como elas andam juntas é difícil dizer.

Char (elu/delu): porque eu sou nove na comunidade aro, acho que valorizo mais a minha identidade ace. Parte do que me ajudou a me identificar como ace foi a ideia de que eu era ace e alloromântique então ainda poderia ter um “final feliz”, então estava mais relutante para me entender aro porque a sociedade definitivamente colocou isso como algo triste e eu acho que ainda não desenvolvi o meu orgulho aro ainda – talvez um dia a minha identidade aro acabe sendo mais importante para mim.

Helen (qualquer pronome): a minha identidade aro afeta a minha vida mais, como vocês mencionaram sexo é um tabu, mas ser arromântique afeta a minha situação de moradia e finanças e esse tipo de coisa, e você precisa considerar essas coisas como parte da sua identidade aro. Então, certamente acho que afeta mais coisas, mas não sei se é mais importante, voltando para pergunta.

Você tem algum conselho para lidar com a solidão aro ou o medo de ser abandonade pelas suas amizades quando elus entram em relacionamentos?”

Helen (qualquer pronome): não, mas se você descobrir algum, me avise

[risos]

Sarah (ela/dela): na minha experiência, fazendo o podcast com uma pessoa alorromântica e que está num relacionamento sério, é muito sobre comunicação – eu sei que é meio “claro, só falar com as pessoas”, mas é mais difícil… parece mais difícil do que é. Mas fazer o podcast com a Kayla, porque nós falamos tanto sobre isso ela já tem mais consciência de como eu me sinto como uma pessoa arromântica, que eu tenho esse medo que meus amigos vão se casar e esquecer de mim porque eles só vão ter amizades com outras pessoas casadas, porque são fases diferentes da vida ou sei lá. Mas se você deixa claro para essas pessoas que relacionamentos platônicos são importante e se eles sabem que relacionamentos românticos não inerentemente melhores ou mais fortes que platônicos, tudo depende das pessoas e o tipo de relacionamento que vocês têm, isso pode ajudar que essas pessoas te entendam e que você não se senta tão insegure porque você sabe que elas não farão isso para você intencionalmente.

Snao (elu/delu): não tenho muito para adicionar, além de que ter um grupo diversificado de amigos, de modo que nem todos eles vão estar na mesma fase ao mesmo tempo. Ainda mantenho contato com muitos dos amigos que conheci na escola, muitos seguiram para as fases de relacionamentos, casamentos, ter filhos e essas coisas não são para mim, mas eu tenho outros amigos com quem posso passar mais tempo. Também ajuda ter uma comunidade online para conectar com pessoas, porque isso sempre foi algo útil para mim; sei que não é para todo mundo, eu tenho a sorte de conseguir criar essas conexões através de quaisquer meios, sejam eles eletrônicos ou em pessoa.

Milly (ela/elu): eu sou mais nova que vocês, eu acho, tenho 21 anos, mas acho que não tenho mais tanto medo quanto costumava ter que as pessoas vão me abandonar. No fundamental eu achava que quando chegasse no ensino médio todos os meus amigos só iriam querer namorar e ficar com outros casais, mas isso não aconteceu, eu tinha um grupo de amigos ótimos que mesmo que eles estivessem em relacionamentos nós ainda saímos juntos. E aí eu pensei que quando fosse para universidade as pessoas só vão estar fazendo essas coisas de casais, mas agora estou na universidade e isso ainda não aconteceu. Então, eu tento me lembrar disso, que se eu mantiver meus relacionamentos fortes e deixar claro como amizades são importantes para mim e me cercar de pessoas que também acreditam nisso, que relacionamentos românticos não são mais importantes que os platônicos, aí quando eu for adulta, com sorte, as pessoas não vão me abandonar e nós continuamos grandes amigos.

Sarah (ela/dela): eu tenho 22 e graduei ano passado, e com certeza é um salto quando você entre a vida de adulta de verdade. É difícil manter as amizades quando vocês não estão todes agrupados no mesmo lugar. Eu sinto que de fato ficou mais difícil quando entrei nessa “vida adulta real”, mas como sempre você só tem de encontrar e se cercar com as pessoas certas.

Helen (qualquer pronome): e faça amizade com outras pessoas aro, entre em comunidades aro, eles não vão te deixar [risos].

Char (elu/delu): eu socializo muito mais online, então sinto que é algo mais superficial, se alguém vai embora não sinto tanto o impacto. Sei que tem um valor grande em amizades mais profundas e, não sei, às vezes acho que devia tentar mais criar relacionamentos platônicos mais profundos, mas não faço isso, então…

Sarah (ela/dela): não há nenhum “deve”. você não “deveria” fazer nada só porque te disseram para fazer. Isso é algo que eu estou tentando colocar na minha cabeça de não ficar nessa de “deveria”s, porque isso te joga para um caminho que outra pessoa construiu para você.

Char (elu/delu): vamos para próxima pergunta… é a nossa pergunta favorita

Você tem dificuldade de entender exatamente o que é romance ou o que isso inclui?”

Helen (qualquer pronome): você mencionou isso mais cedo, Char, então sinta-se à vontade para interromper, mas eu também, além de me identificar como aro, uso o termo quoirromântico, que literalmente significa que eu não sei como é a atração romântica, eu não sei o que é romance [risos], não faço ideia.

Sarah (ela/dela): para mim, em termos de me descobrir aro… eu meio que usei grey-romântica por um tempo, passei um pouco por quoirromântico também, mas eventualmente eu decidi usar aro e ver no que dava, e nunca voltei atrás. Acho que parte do meu problema para descobrir que eu era aro, quando foi tão simples me descobrir ace, é que não é muito claro o que é romance. Eu posso estar falando com uma pessoa nova, com quem eu quero formar uma amizade, mas eu tenho um crush nessa pessoa ou é um squish? Eu só quero muito ser amiga dessa pessoa ou eu quero namorar com ela? E coisas como querer passar um tempo com essa pessoa só os dois não é necessariamente romântico, você ainda pode querer fazer isso de forma platônica. E também porque a pessoa em questão era um homem cis, então a sociedade dizia “você é uma mulher, então você deve ter crush nesse homem” e eu ficava meio “mas eu quero isso mesmo, ou só quero ser amiga dele?”, eu não sei.

Snao (elu/delu): eu assumo que eu entendo, mas também sei que muitas pessoas românticas me contrariariam nisso. E isso também é porque eu sou assexual e supõe-se que eu não entendo o que é atração sexual, o que significa. Eu vejo que existe essa atitude, mesmo em pessoas sexuais ou românticas familiarizadas com essas comunidades, de acharem que eu simplesmente não tenho a capacidade de entender isso. Tem uma diferença entre ser capaz de sentir esse conhecimento dentro de você, como parte de você, e entender isso de uma forma mais objetiva. Todos nós já assistimos histórias de romance na mídia, então nós vemos isso expressado dessa forma – e eu sou uma pessoa bastante imaginativa, eu escrevo minhas próprias histórias e eu criei certos personagens nessas situações e eu entendo o que é numa base mais lógica -, mas acho que algumas pessoas não acham que isso é suficiente e ainda assumem que eu nunca poderia entender de verdade, mas não acho que isso seja verdade.

Sarah: “você vai saber quando sentir” [risos]

Milly: eu também não faço a menor ideia, eu gosto de pensar que eu sei o que é a atração romântica, mas apenas em teoria, mas não objetivamente falando. Eu lembro de uma vez que comecei a namorar um dos meus amigos e ele me disse que gostava de mim romanticamente e eu lembro de perguntar a ele “por quê? Como é esse sentimento? Por favor, explique para mim” – e isso já devia ter sido um sinal que eu não entendo a atração romântica, mas não foi. Mas, é, essa ideia que “você vai saber quando sentir” não ajuda, só confunde mais as coisas. Por muito tempo eu não entendia a diferença entre duas pessoas sairem para jantar ou ir no cinema como amigos ou como parceiros românticos, tipo, qual é a diferença? Estão fazendo a mesma coisa, e, ainda assim, porque essas pessoas têm sentimentos românticos uma pela outra já significa uma coisa diferente.

Char: eu tive um amigo aroace que explicou para mim o que era alguém arromântico como alguém que não queria atos românticos, mas eu não me vi naquilo porque acho que sou mais romance-indifferent*, ou algo assim, pegando do modelo de sex-repulsed, sex-indifferent, sex-favorable. Por exemplo, se alguém me der flores, eu entendo que está tentando fazer uma coisa gentil para mim, eu me sinto um pouco estranhe de não sentir.. mais com isso, mas me ajudou a entender a definição de quoirromântico ou wtfrromântico, porque eu já tive momentos em que logo ao conhecer uma pessoa eu acho ela incrível e quero poder passar mais tempo com ela porque é incrível, mas depois isso some. Como isso é raro, e a pessoa vai embora e eu não iniciaria algo como um relacionamento com base em um sentimento que já passou, eu sinto que é óbvio que estou no espectro aro e é mais fácil só deixar nisso. Agora que eu me entendo melhor, realmente não acho que relacionamentos românticos sejam do meu interesse e posso tentar relacionamentos mais saudáveis. Ainda não saber o que exatamente qualifica como romance é complicado, mas tudo bem. Defender o seu rótulo é difícil.

Helen: acho que essa ideia de “você vai saber quando sentir” é interessante, porque pessoas que não são aro provavelmente vão mesmo saber quando sentirem, então é provável que, se você está tendo dificuldade para entender o que é romance, você seja aro.

Cher: ou pelo menos está dentro do espectro.

Opiniões sobre como a comunidade aro pode se tornar um grupo mais presente, seja online ou em pessoa? Ajudaria se fosse mais separada da comunidade ace?”

Helen (qualquer pronome): eu não acho que separá-la da comunidade ace sequer vá funcionar, porque há tantos aroaces, e mesmo para aqueles que não são as duas comunidades são tão envolvidas, mas acho que destacar as diferenças entre elas é muito importante porque há aros que não são aces que não necessariamente se sentem tão a vontade nesses espaços. Então, acho que elas continuarem interligadas é bom, mas sabendo que elas são diferentes ao mesmo tempo que estão crescendo juntas.

Sarah (ela/dela): pessoalmente, como uma pessoa ace e aro, é muito fácil de misturar as duas, como muitas pessoas que não são aspec fazem porque não sabem que existem atrações separadas. E é tão fácil cair nisso, que seria difícil ter um grupo completamente separado, mas, ao mesmo tempo, ace e aro não são as mesmas coisas, e existem muitos aros que não são ace, e muitos aces que não são aro – eles têm bandeiras diferentes por um motivo. Eu não sei, é a minha resposta.

Snao (elu/delu): a minha resposta é praticamente a mesma da Sarah. Elas com certeza são interligadas para mim, mas acho que é importante lembrar, tanto para um quanto pro outro, que nem todo mundo é igual, só porque me entendem de um lado. Então, não acho que seria capaz de separar completamente essas comunidades, por ex, eu não conseguiria participar de uma comunidade ace que não reconhecesse o lado aro, e vice-versa, elas sempre vão estar conectadas de alguma forma, porque há uma sobreposição de conceitos e das próprias comunidades que, mesmo para pessoas que são apenas um ou outro, apoia ambas as comunidades completamente. Para mim é tão importante que sempre haja alguma conexão entre elas, mesmo que eu reconheça totalmente que nem todo mundo entra em ambas as categorias.

Milly (ela/elu): não tenho muito a acrescentar. Com certeza, são igualmente importantes para mim também, não posso ter uma sem a outra. Acho que no momento especialmente, porque a assexualidade, mesmo que em todo mundo conheça, é mais vista em espaços LGBT+ do que a arromanticidade; a comunidade aro se separar nesse momento não seria possível, porque muitas pessoas se descobrem arromânticas ou que estão nesse espectro, independente de serem assexuais ou não, através da assexualidade em suas jornadas de descoberta, e visibilidade e tudo mais.

Char (elu/delu): essa conversa me lembra… infelizmente não me recordo do nome do canal, mas eles fizeram um painel com várias pessoas LGBTQ+ onde perguntaram sobre a comunidade e estavam debatendo se essa ideia de “cortar” essas identidades mais normalizadas como gay e trans binários e deixá-los lutar sozinhos, porque eles estão tendo relativo sucesso ou focamos em identidades menores que precisam de mais ajuda como não-binariedade, assexualidade e arromanticidade e ajudar todo mundo a crescer dessa forma. Mas isso pode só diminuir o progresso das identidades mais “normalizadas”. Acho que isso se aplica a esse ace versus aro, em que ace está se tornando mais conhecido, então nós focamos na arromanticidade, nós focamos no espectros e certificamos que todos sejam mais conhecidos junto a assexualidade, ou tentamos diminuir o peso e focamos na assexualidade primeiro e depois na arromanticidade. Pergunta de ética, não tem resposta certa.

Sarah (ela/dela): eu também acho, pegando do que Milly falou sobre muitas pessoas entendem a arromanticidade através da assexualidade. você não quer alienar pessoas, como o que você estava dizendo, Char, se deveríamos separar gays e trans binários das identidades menos conhecidas, mas algumas pessoas começam em um e depois descobrem que são outro. Acho que se separarmos demais, vai tirar ênfase da fluidez da sexualidade e do espectro, que são partes importantes. Então é uma linha fina a se andar*.

Char (elu/delu): parece ter alguns, não todos, na comunidade de trans binários e gays que não gostam da grande quantidade de letras, não querem ser chamados de “queer” porque não pensam em si mesmos como “estranhos”… e como alguém acabou de comentar no chat, também há aces gay, e aros gay então há uma junção… mas eu diria que pessoas trans [binárias] e gays alossexuais, alorromânticos, eles têm as próprias batalhas para lutar e eu entendo não quererem se envolver com os espectros, mesmo que eu suspeito que isso vem de uma afobia da parte deles. Alguém tem algo a adicionar sobre comunidades e direitos e lutarem juntos?… Eu diria também a importância de pessoas ace e aro entenderem as necessidades uns dos outros e representação é um meio para nos apoiarmos.

Alguns de vocês está, ou já esteve, em relacionamentos queerplatônicos e como vocês diriam que elas diferem de relacionamentos românticos ou amizades fortes?”

Helen (qualquer pronome): mi parceire queerplatônico está logo ali [elu mostra a mão para câmera fazendo sinal de positivo] e também está no chat, então digam oi para elu. Nós estamos em um relacionamento queerplatônico há seis ou sete anos… acho que 7, eu devia saber isso (elu no fundo: são 7). Nós moramos juntes, fazemos todo tipo de coisa típica de construir nossas vidas juntes, mas não estamos num namoro romântico. Elu tem ume noive, com quem está em um relacionamento romântico, eu moro com elus e é ótimo. Relacionamentos queerplatônicos são muito difíceis de definir, porque eles são muito diferentes, todas as pessoas que estão em relacionamentos queerplatônicos os moldam do jeito que preferem, sem uma definição específica, pelo menos na minha experiência. Todo mundo pega pedaços de relacionamentos românticos e pedaços de amizades que elus gostam e juntam num só.

Sarah (ela/dela): eu nunca estive em uma QPR, também não estou procurando, mas não sou oposta a ideia. Como você estava dizendo Helen, é uma benção e uma maldição* que elas são todas criadas do zero, não existe um padrão, e isso é ótimo, que você tenha essa liberdade para moldá-la do que jeito que quiser, mas por outro lado eu não teria nem ideia de por onde começar. Então, pessoalmente, eu penso que se cair de paraquedas para mim, ótimo, mas ter algum parceiro de qualquer tipo não é tão importante para mim nesse momento que eu vá necessariamente ir atrás.

Snao (elu/delu): eu nunca estive em uma QPR e não estou particularmente interessade em estar, porque gosto de estar morando só pelos últimos 10 anos, de ter o meu próprio espaço e a minha própria liberdade. A minha concepção de QPRs, que é provavelmente diferente da de outras pessoas, é de, basicamente, um companheiro de quarto permanente com um nível de intimidade, integração financeira e um reconhecimento social dessa amizade permanente, no caso, um passo acima de amizades comuns. Eu tenho muitos amigos próximo e os amo muito, mas não quero dividir uma vida com eles dessa maneira, não é algo que me interessa. Estou feliz com a vida que criei para mim mesme, onde sou só eu e o meu cachorro, que não está aqui agora, infelizmente, para pular em cima de mim e lamber o meu rosto no meio da live. Não sinto uma necessidade de outra pessoa, não tenho um motivo prático ou emocional para isso, pessoalmente, então não quero uma QPR. Quanto a como isso se difere de relacionamentos românticos, eu acho que é sobre a praticidade; a minha aversão à relacionamentos românticos é sobre o lado emocional também, mas do jeito que enxergo QPRs, é muito sobre aplicar a força de uma amizade com a compatibilidade dos objetivos de vida a uma forma de viverem juntos praticamente.

Milly (ela/elu): apesar de eu nunca ter tido uma QPR, eu adoraria um, mas não estou procurando ativamente. Eu já morei em quatro países diferentes e ainda pretendo morar em muitos outros, porque eu trabalhar viajando, basicamente, então não acho que seria muito prático para mim. Uma das minhas melhores amigas do ensino médio, quando eu me descobri aro e contei a ela sobre relacionamentos queerplatônicos ela disse “e isso não é basicamente o que nós tivemos?”. Acho que em relacionamentos queerplatônicos, um passo importante é o reconhecimento de que é algo diferente. você não pode ter um relacionamentos queerplatônico sem esse nível de comprometimento e sem pensar sobre como criar a vida de vocês ao redor da do outro, e finanças e essas coisas. Mas, de novo, eles podem parecer relacionamentos românticos, podem parecer amizades, eles podem funcionar como qualquer coisa no meio disso.

Helen: algo interessante é que você e a Sarah disseram estar abertas a uma QPR, mas não estão ativamente indo atrás, porque eu também não estava. Nós éramos amigues, e aí decidimos “vamos fazer isso para sempre”. Então nem sei como alguém iria atrás de uma QPR ativamente…

Char: eu acho que há sites de namoro para aces e aros onde você pode dizer que está buscando uma QPR.

Milly: Todo mundo devia dar uma olhada no AceApp, só queria falar isso rapidinho, dá para achar pessoas por lá.

Snao: já vi algumas pessoas falando sobre QPRs como se estivessem em uma com uma pessoa que não foi informada disso, o que me parece estranho, porque como Milly disse, você precisa saber e decidir que está em uma QPR junto com a pessoa. Acho muito estranho colocar a pessoa nessa posição sem o conhecimento ou consentimento dela. Isso é algo que eu acho importante falar sobre QPRs, a diferença entre elas e uma amizade próxima que significa muito para você é o lado prático, [QPRs] são algo que você precisa de comunicação para realmente estabelecer o que é esse relacionamento.

Helen: precisa ser algo mútuo, sim.

Milly: o maior elemento de QPRs é limites e comunicação.

Char destaca um comentário com uma pergunta sobre o tópico: “Só é uma QPR se ambas as pessoas denominarem assim a relação? Se a dinâmica entra nisso mas uma das pessoas vê como uma amizade?”

Char (elu/delu): eu falei sobre algo parecido no painel de Aces na Ficção sobre rotular como ace personagens que não necessariamente foram feitos com a intenção de serem isso, ou personagens que parecem ser aces mas não se rotulam assim. Acho que isso também vale para pessoas reais, mesmo que alguém não sinta atração sexual ou tenha outras características comuns de aces, se a pessoa não referir a si mesma como ace não deveríamos dizer que ela é ace. Então, nesse caso, se ambas pessoas envolvidas não definiram o relacionamento como uma QPR, não deveríamos chamá-lo de QPR.

Helen (qualquer pronome): obviamente pessoas diferentes vão moldar suas QPRs de formas diferentes, mas isso foi a grande diferença para mim, de “é assim que vamos nos referir ao nosso relacionamento, não estamos chamando de amizade, ou de romance, estamos dizendo que é essa coisa”. Se não houve essa conversa, essa decisão entre as pessoas seria estranho chamar a relação de QPR.

Sarah (ela/dela): a forma que a minha co-apresentadora, Kayla, descreve QPRs é tipo… ela e eu temos uma amizade muito próxima, mas quando ela se mudou pro outro lado do país a trabalho, ela não veio falar comigo sobre quais os nossos planos, se eu iria com ela ou algo assim. Não foi uma conversa que nós tivemos, mas ela discutiu isso com o namorado dela. Acho que é impossível ter apenas uma das pessoas dizer que vocês estão em uma QPR se a outra pessoa não reconhece isso, porque falta comunicação, isso é uma parte do que é esse relacionamento, então acho que, muitas vezes, essa intencionalidade é o que define uma QPR. Claro, Kayla e eu somos grandes amigas, nós nos importamos muito uma com a outra, fazemos o podcast juntas, mas nós duas sabemos que ela se mudar para outro estado ela não vai perguntar para mim, da mesma forma que eu não perguntei para ela quando eu me mudei pro outro lado do país também, sabe?

Snao (elu/delu): [voltando pro que Char estava falando antes?] acho que, com todo tipo de coisa, não há problema em pegar ideias da ficção e elementos de uma história, ou das vidas de outras pessoas, nos quais você se reconheceu ou percebeu como algo que você quer para sua vida, aí na sua vida você chama um relacionamento de QPR. E tudo bem fazer essa decisão na sua vida, tirar essa inspiração de alguma outra pessoa ou algum trabalho da ficção, mas não podemos impor nossos próprios termos a coisas que não são nossas, mas ainda podemos nos inspirar nelas. Não acho que tenha algo de errado em exagerar uma situação porque o que você viu pode te inspirar a ter uma QPR. Não é necessariamente reescrever a história.

Char: na faculdade eu tinha uma amiga que eu conheci no ensino médio e aconteceu da gente se mudar para mesma cidade e eu ficava muito no apartamento dela e ela ficava no meu – nós dividíamos um galão de leite, porque não terminaríamos ele sozinhas, então levávamos ele da casa de uma para outra. E até chegamos a dizer “ah, se não encontrarmos uma pessoa até essa certa idade, então nós seremos a pessoa uma da outra”. Nós não tínhamos as palavras para QPR, mas nós definimos minimamente algo parecido, e quando falamos sobre isso depois nós concordamos que definitivamente era algo nesse território. Mas ela achou uma pessoa, e é alorromântica, então… de novo, aquele medo de ser abandonado.

Uma coisa que eu tenho dificuldade com QPRs é que eu nunca sei se eu quero uma QPR ou só quero preencher o vazio da ausência de um relacionamento romântico porque acho que eu deveria ter algum tipo de parceiro na minha vida. Não sei como descobrir isso então só vou continuar pensando nisso. (Helen: com certeza isso é algo que QPRs não devem ser, não devem ser só esse meio de preencher um vazio.). É tipo, eu quero ser mais feliz, mas QPRs não deveriam ser reduzidas a um meio de você ser mais feliz.

“A arromanticidade pode ser representada em arte de uma forma positiva e alegre?”

Helen (qualquer pronome): Sim, eu assumo que estamos buscando exemplos aqui – se você estava no painel sobre ficção houve uma discussão interessante sobre usar ou não rótulos nas coisas, e esse não usa nenhum rótulo, mas – o seriado Belas Maldições (Good Omens), eu absolutamente li como um relacionamento arrômantico, foi tão feliz e tão adorável. Se nós tivéssemos algo daquele jeito, mas usando a palavra aro, seria perfeito. Claro que isso pode acontecer, nós só precisamos de mais representação, por favor.

Sarah (ela/dela): eu concordo completamente, não existem muitas representações onde essas palavras são usadas, mas eu sou escritora e quero escrever coisas para TV, e você já pode imaginar que eu vou colocar isso em tudo.

Char (elu/delu): um bom exemplo, para mim, é Summer Bird Blue. A protagonista está meio traumatizada e se questionando então não é exatamente uma história aro feliz, mas eu achei positiva no sentido de que ela ser aro não foi colocado como algo negativo.

Snao (elu/delu): é um equilíbrio entre ter um personagem complexo sem ser bidimensional e a arromanticidade dele não ser ligada a um trama do seu passado. A arromanticidade precisa poder existir por si só, mas também o personagem ter profundidade, como qualquer outro personagem principal de uma história teria.

Tenho dificuldade em saber se experiencio atração romântica ou se só quero certas coisas que a sociedade coloca como romântica – como por ex intimidade ou abraços. Como você resolve isso?”

Milly (ela/elu): para mim a diferença foi a intenção de romance. Se eu sentia que alguém tinha intenções românticas comigo eu me sentia desconfortável, mas se eu penso em intimidade emocional ou abraços, que são mais ligados à atração sensorial, é mais físico. Às vezes o importante é separar atrações físicas, tipo sensorial, estética ou sexual, da atração romântica e essa intimidade emocional. Mas para mim o que me ajuda a resolver definitivamente são as intenções.

Helen (qualquer pronome): eu não diferencio essas atrações, porque decidi que eu não sinto nenhuma atração na verdade [risos]. Se eu acho que alguém é bonito, não é porque estou atraíde esteticamente, só o acho bonito – pelo menos é assim que eu entendo a situação na minha cabeça.

[mesma pergunta, segunda parte] “No mesmo tópico, você tem alguma coisa que ajude você a separar os diferentes tipos de atração?”

Char: o que me ajudou foi assistir vários vídeos diferentes discutindo os tipos de atração, modelos de 5 ou até mais – você tem os básicos que são romântica, sensorial, sexual, platônica… estou esquecendo um (Sarah: estética?)… isso, estética, obrigada, e algumas pessoas adicionam atração intelectual, ou emocional. Então, conhecer esses diferentes tipos já me ajudou a diferenciar e ter alguns exemplos, mas também sentar sozinhe e pensar no assunto, em como eu estava me sentindo, o quê da pessoa me interessou e o que quero fazer com aquele sentimento. A percepção dessas atrações são diferentes para cada pessoa e são sempre muito complicados de explicar, só sobra para você e pro seu cérebro mesmo [risos].

Helen: no final das contas, é só uma decisão sua, você tem que definir essas coisas sozinhe.

Milly: e para muitas pessoas elas são ligadas, então se você sente duas de uma vez é bem complicado de separá-las.

Snao: muitas pessoas nem tem um motivo prático para separá-las e eu super respeito isso, que algumas pessoas veem seus momentos românticos interligados com seus momentos sexuais ou sensoriais, e isso é parte da experiência geral delas. Não precisa ser dividida para todo mundo, porque, claro, o jeito que nós pensamos e sentimos é diferente e devemos respeitar isso, que estamos vivenciando coisas individualmente.

Char finaliza e agradece a participação dos convidados.


Tradução por Kira Laine

Caso queira utilizar essa tradução, avise por email: aroaceiros@gmail.com


Glossário:

  • Sexo/romance-repulsive: quem sente repulsa à ideia de coisas sexuais/românticas.
  • Sexo/romance-indiferente: quem é neutre à ideia de coisas sexuais/românticas.
  • Sexo/romance-favorável: quem gosta da ideia de coisas sexuais/românticas.
  • Aspec: espectros ace e aro.

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