Podcast #2 – Saindo do Armário


Nesse episódio vamos contar como foi o processo de aceitação e saída do armário aroace, relatamos as dificuldades, anseios e o sentimento de aceitar quem realmente você é. Espero que você goste! 

Participantes: Mojo, Morfeu, Eduarda
Edição: Ash


Transcrição de áudio – Episódio 2: Sair do Armário 

[Música de introdução] 

Mojo: E aí pessoal, a gente começa hoje mais um episódio do podcast aroaceiros. Hoje a gente vai falar sobre um tema bem interessante, sobre sair do armário, a gente trouxe algumas questões. Quem tá falando com vocês agora é o mojo. 

Morfeu: Eu sou o Morfeu! 

Eduarda: Eu sou a Eduarda! 

Mojo: a primeira pergunta que a gente tem é: Você já saíram do armário? 

Morfeu: Eu to fora do armário para os meus amigos, na verdade, com os meus amigos eu não tive um processo de sair do armário. Porque eles participaram da minha etapa de descoberta. 

Então quando eu estava me descobrindo, eles estavam lá comigo, então quando eu aprendi direito sobre assexualidade, eu fui direto pros meus amigos perguntar “ah vocês sentem da mesma forma que eu sinto? Como é a atração sexual?” para eles me explicarem para eu entender sabe? Então eles participaram de todo o processo da minha descoberta, desde o início quando eu tive suspeitas, até eu ter certeza. Tanto sobre ser assexual e arromântica. Então eu não tive um processo muito dramático de sair do armário. 

Eu tive esse processo com a minha prima, que é a única pessoa da minha família que sabe que eu sou assexual e arromântica e pra sair pra ela foi bastante complicado, porque sair do armário é um processo muito tenso, você sente uma pressão mental muito grande, é muito tenso, você fica com medo. 

Então eu fui sair pra ela com o coração na mão sabe. E ela aceitou super bem, eu fiz um apelo emocional, primeiro eu contei que sou arromântica né, aí eu falei pra ela que eu nunca tive ‘crushes’, nunca me apaixonei e ela sabia dessas questões. Eu achava que eu era fria antes e tudo mais. 

Essa sempre foi uma grande questão pra mim, sobre ser assexual nem tanto mas sobre não me apaixonar pela questão da ‘amatonormatividade’ sempre foi uma questão pra mim e eu sabia disso. Aí eu falei pra ela “olha isso tem um nome, é arromântica”. 

E depois eu contei que eu era assexual e ela também aceitou super bem, fui chamado de ‘assexuado?’ fui, mas depois que eu expliquei direito, ela entendeu e parou de me chamar assim. A aceitação dela foi tranquila, mas chegar nela pra contar foi um processo muito tenso, que exigiu uma carga emocional muito intensa sabe, foi complicado nessa questão. 

Mas eu não me vejo saindo do armário pro resto da minha família, não me vejo mesmo” Chegar pra eles e explicar o que é e eles entenderem e aceitarem. Eu acho complicado. Eu

acho que seria um processo muito doloroso e eu não me vejo fazendo isso, pelo menos não por enquanto e eu não me vejo saindo do armário pra todo mundo. 

[Música] 

Mojo: O meu processo de entendimento, de descoberta sobre ser assexual também foi acompanhado por alguns amigos do ensino médio, eles acompanharam toda a minha descoberta sobre assexualidade, como funciona. 

Porque eu sempre fui ciente disso, que eu não tinha interesse em ficar com ninguém, eu tinha uns 15 anos mas, é muito comum pessoas de 15, 14, 13, só pensam em “ficar, ficar ficar” e eu não tinha isso, zero mesmo. 

Aí eu fui falando sobre isso na escola, eu fui fazer um trabalho sobre isso e apresentando, e aí eu meio que saí do armário sem querer, antes mesmo de eu entender, de eu chegar e falar pra mim mesmo “eu sou ace”, as pessoas já sabiam porque elas tinham concluido, porque eu só falava disso. 

Na internet eu conto pra todo mundo tipo, a pessoa me seguiu ela já sabe entende? Meu perfil é muito aberto sobre isso, eu falo muito sobre, sobre ser arromântico um pouco menos, porque eu não tenho mais o pique de falar sobre as coisas, eu não falo mais sobre assexualidade do que quando eu falava quando eu tinha ‘sei lá’, 16. 

Mas eu já tenho esse histórico na minha pessoa. Agora sobre arromanticidade eu já fui descobrindo mais na surdina, apesar de que eu tento falar sobre essa comunidade, sobre essa orientação também. Para outras pessoas eu não gosto de contar. 

Porque fora da internet as pessoas sempre reagem tipo “Ah, você tem uma doença”, “Tem alguma coisa errada com você”, “Você tem que ir num psicólogo”, até mesmo contando pra um psicólogo, nem sempre a reação é muito boa, então eu não gosto de falar que eu sou assexual, geralmente eu falo na internet. 

[Música] 

Eduarda: Eu nunca senti essa necessidade, eu nunca me vi a vontade de me assumir pros meus pais e eu me descobri em torno dos 15 anos, quando eu percebi que com as pessoas que eu me envolvia, eu nunca conseguia retribuir o que me falavam “Ai to apaixonada por ti” e tal e esse tipo de coisa. 

E eu sempre me senti meio impostora, como se eu tivesse iludindo aquelas pessoas, porque eu nunca consegui sentir o mesmo, era sempre esse ciclo, iniciava algo, ficava mais profundo e eu logo em seguida dava um fim porque eu me sentia muito angustiada de pertencer naquilo. 

A primeira vez que eu descobri o termo foi quando eu falei pra minha irmã, ela é mais velha e mais engajada nessas coisas e acabou me contando sobre essa orientação. E desde que ela me falou, eu fiquei com isso na minha cabeça por um bom tempo, tentando me entender. Até que eu ouvi, alguma vez que eu me relaiconei com alguém muito profundo, eu

vi que se eu realmente não me assumisse, que se eu não me aceitasse e não me entendesse quem eu era, eu ia estar sempre magoando as pessoas e nunca me sentiria pertencente a quem eu realmente sou. 

Então foi em torno de uns 16, 17 anos que eu me assumi e eu nunca precisei contar isso pras minhas amigas, porque elas sempre foram pessoas muito compreensivas e nunca me cobraram nada, então eu sempre falei como eu me sentia e elas sempre me deram o máximo de apoio possível, da maneira que elas conseguiram e entenderam. 

E isso nunca foi uma questão difícil pro meu ciclo de amizade e como eu falei, com os meu pais eu nunca tive essa abertura e eu pretendo nunca falar, só quando eu talvez sair de casa e me envolver com alguma pessoa que eu precise apresentar, mas a princípio não é algo que me incomoda, relacionamento também nunca foi algo muito cobrado na minha casa, então se eu namoro ou não, meus pais nunca se importaram de verdade. 

E aí, em questões de sair pra desconhecidos, foi quando eu conheci um garoto e ele falou “Então, o que vai ser?”, e eu disse que eu sou arromântica, é o que tem pra hoje. E pra minha psicóloga, ela foi um amor. 

Ela anotou o termo e falou que ia pesquisar, me pediu pra explicar, e tal. E essas foram as saídas do armário com pessoas que eu não conhecia, com quem eu não tinha intimidade, e felizmente nunca tive uma reação muito negativa. O que me irritou foi com esse menino, porque ele ficou “Tá, mas você nunca vai se apaixonar?”. 

E aí eu tive que ter um pouco de paciência pra explicar. E com outro menino, que fez eu me aceitar, porque ele era uma pessoa que eu tinha muita consideração e ele falou que tudo bem eu ser assim que mesmo assim ele queria um relacionamento, mas acho que ele não entendia que vai muito além de estar num relacionamento ou não, é tipo uma questão interna e o jeito que eu me relaciono e vejo as coisas tem muita influencia nisso, é muito mais do que só responder sim ou não pra um pedido de namoro. 

Mojo: Real né, as pessoas entendem muito errado a questão da arromanticidade, tipo eu consigo identificar em mim dois tipos de vontades, aquela vontade que eu tenho racionalmente, que tem toda uma motivação por trás tipo, eu quero estar num relacionamento, pois estou carente, é um desejo racional digamos assim. 

E aquela vontade instintiva sabe, tipo, um negócio que eu não tenho nenhum tipo controle, vontades e desejos que vem de mim como ser humano e vontades que eu quero, por tal coisa que eu vi, por pressão, sei lá, pra mim essas coisas tem uma diferença muito grande, não sei se tem pra vocês. 

E as pessoas não entendem, quando a gente fala de pessoas arromânticas ou assexuais, que não é porque a pessoa não sente vontade de tentar ou experimentar ou ter aquilo, é que ela enquanto indivíduo, não sente esse instinto entendeu? 

Morfeu: Nossa eu também. Eu não sei vocês, mas eu tenho muito medo de entrar num relacionamento com uma pessoa que seja alorromântica e essa pessoa estiver apaixonada por mim, porque eu não vou retribuir a questão sentimento romântico.

Na minha cabeça eu sei que não é assim, eu sei que existem vários tipos de amor e que o meu amor também é válido, mesmo não sendo amor romântico, mas quando chega assim na prática, eu fico assim com essa ‘nóia’ de não sentir a mesma coisa que a pessoa, não poder retribuir aquele sentimento romântico e tá dando menos, recebendo demais, porque a outra pessoa está apaixonada e eu to dando de menos, eu não tô contribuindo com amor. 

Eu me sinto assim, mesmo que não seja assim realmente, é uma questão tão profunda na gente sabe, que eu me sinto dessa forma. Então eu morro de medo de entrar num relacionamento por essa questão romântica. 

Mojo: Eu me sinto muito assim também, os meus relacionamentos… eles têm um padrão, um padrão muito específico e desse padrão extremamente específico eu consigo entender que eu sou ‘reciprorromântico’ de primeira e aí eu me torno ‘litorromântico’ e aí eu não quero mais entendeu? 

Não tem demônio que me faça querer estar num relacionamento com aquela pessoa, nossa senhora parece que eu vou morrer, é horrível, eu odeio ser assim gente, é um experiência muito ruim tipo, é um junção de orientações horrível, péssima é uma das piores eu acho. 

Eduarda: Sim eu super entendo, porque todas as pessoas que eu tive algo, foi por muita sorte, foram pessoas incríveis que me fizeram muitas coisas e eu sempre me sentia muito triste de não conseguir retribuir aquilo. 

E toda vez que eu terminava com alguém, eu sempre saía como a menina que iludia, como se eu fosse fria e como se eu tivesse entrado naquilo realmente só pra iludir a pessoa sabe e nossa isso me machuca tanto, eu tenho tanto medo de me envolver com uma pessoa e acabar sendo taxada de iludir e de deixar na ‘friendzone’, sendo que não é porque eu não quero, mas nunca conseguir sentir. E ainda valia a pena estar num relacionamento. 

Morfeu: Vocês tavam falando dessa questão assim de namorar e eu nunca cheguei a namorar ninguèm, mas eu passei por uma fase que foi complicada, porque eu achava que tinha algo de muito errado comigo por essa questão de eu nunca me apaixonar. 

Porque como eu disse antes, eu nunca me apaixonei e eu nunca tive um relacionamento, eu nunca nem comecei um relacionamento, eu não sei como as pessoas começam, como que se parte do “oi” para o “vamos namorar”, eu não sei como isso acontece. 

Eu até tentei sabe, eu passei por um momento de alorromanticidade compulsória e eu tentei me apaixonar e ter um relacionamento. Só que eu não conseguia, porque pra mim não fazia diferença. 

Se eu tivesse uma amizade com a pessoa ou uma relação íntima que não envolvesse exatamente o namoro, pra mim já tava bom, eu nem sentia nem precisava daquele sentimento de romance, então foi um momento complicado que eu me forcei demais a ter um relacionamento, a agir de um jeito que era “normal” para as pessoas agirem e foi complicado.

Eduarda: Pelo amor de deus, sim! Pra mim chega num ponto de tanto desinteresse, que a pessoa manda algo e eu posso passar o dia inteiro sem responder porque é realmente falta de interesse. Eu me sinto muito mal, porque a pessoa gosta de mim, tá ali por mim e eu não consigo sabe, é uma sensação tão horrível que eu penso “O que tem de errado comigo?” 

Morfeu: E, eu não sabia o que ‘tava acontecendo comigo, eu não sabia que eu era arromântica, eu não sabia que existia isso de arromanticidade. Passava pela minha cabeça que existia a probabilidade que alguém pode passar a vida toda sem se apaixonar e eu não sabia que isso tinha nome, eu não sabia que era arromântica. 

Então, eu queria ter me descoberto mais cedo, seria muito mais fácil se eu tivesse me descoberto mais cedo. E nessa questão da aceitação com assexual foi bem tranquilo, eu li e entendi, já aceitei. Agora na questão da arromanticidade foi… foi bastante intenso, eu ainda passei por uma fase de negação e foi mais complicado. Não sei se foi assim com vocês também, a Eduarda no caso é ‘allo né, como foi pra você, mojo? 

Mojo: Minha descoberta ace foi muito incrível, a gente pode até entrar num tópico depois sobre se assumir pra vocês mesmo, mas pra mim foi muito fácil, eu bati o olho e fiquei obcecado por aquilo eu só falava daquilo, eu fiquei completamente animado, eu fiquei “É isso! É eu!” 

Só que pra ser arromântico demorou muito, muito tempo mesmo eu fiquei em muita negação, foi a última identidade que eu me aceitei. Foi mais fácil me entender aceitar como trans do que como arromântico sabe, porque tipo, é aquele negócio, aquela pressão de “Ai você precisa gostar de alguém romanticamente, você precisa estar num relacionamento se não você é um monstro”. 

Aquela coisa dos filmes era muito colocada dentro da sociedade, até porque sexo ainda é considerado um tabu. A gente é ensinado a querer, mas querer na “surdina”. E agora estar num relacionamento romântico é algo que as pessoas querem estar o tempo todo, sempre, sempre, sempre, você tem que estar com alguém, se você terminou com alguém você já tem que “voltar pro jogo”. rs. 

E tipo assim, não sabe, enfim, isso dificultou muito o meu auto-entendimento, porque eu queria muito, ainda ás vezes quero, estar num relacionamento romântico, mas eu não consigo sentir, é como a Eduarda falou não é questão de querer, porque eu quero, mas eu não sinto. Não sinto! 

Eduarda: Também acho que tá muito atrelado, porque pelo o que eu percebo, o passo entre amizade e se apaixonar pra pessoas ‘allo’, é muito rápido, tirando obviamente, questões do tipo balada, onde a maioria tá lá pra se envolver. Mas um dos meus maiores problema foi querer amizade com alguém sem segundas intenções, às vezes até tendo, e a pessoa já avançar muito rápido e tipo, calma, sabe? 

Tem muita pressão e o afeto também é muito relacionado com questões romântico. Com amizades, quando você é muito afetuoso com os teus amigos logo começam a falar coisas, então pelo menos pra mim sempre me incomodou eu ser muitoligada aos meus amigos, ser muito carinhosa e me verem como um interesse romântico e começarem a me shippar com aquela pessoa sendo que é desconfortável, eu só estou dando carinho e não tem nada de errado, não é porque eu tô abraçando e dando carinho que tem interesse romântico, nem sempre é assim 

Morfeu: Não sei se é assim pra vocês, mas eu tenho a impressão que a gente que é aro, vê a amizade de maneira totalmente diferente, porque parece o o nosso sentimento, o meu pelo menos, parece que o meu sentimento de amizade é mais intenso, parece que eu dou muito mais importância ao sentimento de amizade do que eles, a importância que eu dou pra amizade, parece que eles dão pra relacionamentos românticos, então parece que o meu sentimento é muito mais intenso, que eu valorizo muito mais essa amizade que os meus amigos. 

É a impressão que eu tenho sabe? De que é um sentimento diferente. Eu até fico um pouco enciumada. Parece que a pessoa dá mais importância para aquele relacionamento, eu até me sinto “enciumada” quando meus amigos que são allo entram em relacionamentos. É isso, eu não sei se é pra vocês ou se isso é coisa da minha cabeça e eles sentem igual, não sei, como é pra vocês? 

Eduarda: Morfeu, eu super concordo contigo e tenho certeza que não é coisa da sua cabeça [risos] porque eu sinto a mesma coisa até pelo jeito que eu observo as minhas outras amigas se relacionando porque são alorromânticos então eu percebi que eu sempre fui a mais ligada, a mais dedicada, a que teve uma conexão muito forte e que pequenas coisas e momentos que me dão essa segurança sempre importaram muito pra mim. 

Quando elas começavam a namorar, eu me sentia um pouco rejeitada e até com um pouco de ciúmes porque é incrível como quando a pessoa começa a namorar e se tu for fofa com aquela pessoa as pessoas vão te olhar meio feio do tipo: “Ei! Aquela pessoa está namorando” só o namorado pode ser fofo e carinhoso com ela. 

Isso já aconteceu muito de me verem como uma terceira pessoa da relação e tal. E já aconteceu também, do namorado da minha amiga ter ciúmes de mim, porque eu sou bi e ele achar que eu ia pegar a namorada dele e ele super inseguro comigo só porque eu sou fofa e gosto de estar ali presente, de ser carinhosa. 

Mojo: Demais e é engraçado pensar que antes de eu ter noção sobre ser aro por muito apegado aos meus amigos, tipo, muito afetuoso, eu abraçava muito, passava a mão no cabelo, ficava de mãos dadas… 

E depois que eu entendi isso, foi depois que eu comecei a aprender a entender sobre o que as pessoas acham desse contato físico mais carinhoso. E e também as pessoas achavam que eu namorava esses meus amigos que eu era bem próximo. 

Então com o tempo, eu comecei a me afastar, não só por isso, mas eu não consigo mais ser assim com amigos próximos, tipo, deve ter umas duas pessoas com quem eu me sinto confortável novamente sendo bem próximo mesmo não tendo sentimentos românticos ou queerplatônicos pela pessoa. Mas também é muito raramente, parece que eu tô fazendo uma coisa errada ou tô me apossando de um negócio que não era e as pessoas sempre entendem errado.

E até mesmo por eu ser bi também bem, sabe? Eu não posso me aproximar de ninguém porque as pessoas já associam a eu querer ter algum tipo de relacionamento ou relação com a pessoa 

É bem interessante pensar nisso porque, enquanto aroace, as pessoas acham que a gente é uma bola fria sem sentimentos que só quer usar os outros e enquanto bissexual a gente quer pegar todo mundo, é muito ruim. 

Eduarda: Sem dúvidas, acho que a principal experiência que tive sobre isso foi quando um menino falou que eu e uma amiga minha parecíamos um casal… Gente, vocês não tem tem noção a gana que me subiu porque eu fiquei “e se fôssemos? Qual é o problema?” 

Mas principalmente não somos, não tem como tu respeitar o fato de eu ser carinhosa e tal? E isso sempre foi uma questão muito interna pra mim e eu sempre deixei claro pras minhas amigas e tô sempre perguntando qual é o limite pra elas, porque eu não quero incomodar. Não quero ser abusiva demais com os meus carinhos. 

Eu noto quando como se é arromântica, seus amigos têm uma ligação muito forte com as pessoas com quem você vai dar atenção e carinho, sabe? Sem ter alguma questão romântica em relaçionada à isso. 

Mojo: Nossa, sim, eu sou constantemente “a vela”, eu sou sempre. Direto tem esses casais de amigos meus que eu sou muito próxima da pessoa e ela começa a namorar… Eu continuo muito próxima, me torno próximo do casal. 

Eu lembro de uma vez que eu queria desabafar com uma amiga minha e ela veio com o namorado, aí eu fiquei tipo: “Quero conversar” e aí ele ficou: “Mas depois ela vai me contar”. 

E aí chegou um momento que eu ia conversar com ele as vezes, eu comecei a criar uma conexão com os dois de amizade. Era uma situação engraçada, mas nem sempre rola isso… Às vezes a pessoa só me afasta e isso é chato, inclusive, foi isso que me traumatizou. 

Atualmente, uma pessoa começa a namorar e a gente tem essa proximidade, essa conexão emocional um pouco mais forte, enquanto amigos, eu já inconscientemente começo a parar de dar toda essa importância pra pessoa porque eu sei que ela não ia dar toda essa importância pra mim, ISSO se ela já tiver dado alguma vez. 

É muito isso. As pessoas vêem a gente como bi e acham que a gente vai querer pegar as outras. “Não, querida! Relaxa.” 

[Música] 

Mojo: A gente pode introduzir agora aquele termo que a gente sente quando se assume outra identidade queer e quando se assume aro ou ace. Pra mim, a mais fácil de falar pras pessoas é que eu sou bi. Porque as pessoas têm uma ideia, errada, mas elas têm. “Eu sou bi” e as pessoas “ah, ok”, e eu não falo mais nada.

Eu odeio isso, eu odeio sair do armário, odeio [repetição], me sinto muito vulnerável. Enquanto trans, também, é um negócio super travado… Uma vez a gente tava jogando RPG e só duas pessoas não sabiam, aí meus amigos ficavam: “conta, Mojo, porque aí a gente pode te tratar no nome certo, nos pronomes corretos durante os jogos, não vai dar em nada” 

E com esse incentivo eu contei pras outras pessoas, e foi uma coisa tipo “gente, eu sou trans, sou um garoto, é isso, vamos embora” [risos]. E foi só isso. Eu odeio ser vulnerável. É horrível, me sinto quase pelado, parece que você tá cometendo um crime, fazendo uma grande revelação. Tipo, eu sei que é um momento muito importante de uma pessoa LGBT se assumir, porque você precisa ter total controle e tudo mais, mas nossa, Eu me sinto muito vulnerável, mas eu não conto que sou aroace, o que eu menos conto é sobre ser aroace. 

Até porque sobre ser trans, eu não conto que sou não-binário. Sobre ser não-binário e sobre ser aroace, eu não conto pras pessoas fora da internet, porque elas não entendem, e ao explicar o que é, eu sinto que estou me expondo. Nossa, no momento da saída do armário eu não explico nada, eu só falo “eu sou isso, aquilo e aquilo outro” e explico o mónimo possível e pronto. 

Eu também seleciono pra quem eu conto, não saio contando pra todo mundo, eu vejo que as pessoas aceitam muito melhor sobre ser bi e trans do que aroace. Porque elas acham que é uma coisa muito errada pra você [risos]. 

Morfeu: Eu também sou pan e eu não tive um processo de saída do armário, aquela coisa dramática de chegar e falar que eu sou pan daquela forma bem dramática. Foi simples, de eu tô numa conversa e eu falo “ah, eu gosto daquela pessoa, acho aquela pessoa bem bonita, senti um pouco de atração”, mas é bem diferente se assumir de qualquer coisa que não seja aroace, dependendo, sabe? 

Porque tem um peso diferente pra cada pessoa. Mas é diferente porque a pessoa já tem ideia do que é, você não precisa ficar explicando, e é muito mais fácil o procede você falar e a pessoa entender e é mais fácil o processo de contar que é. Eu não cheguei a contar pra ninguém desconhecido de fora, que sou aroace porque eu me descobri agora na quarentena. 

Então eu não tive assim, esse contato… essa possibilidade. mas assim, você falar que é outra coisa, que não aroace, é muito diferente. 

Eduarda: Então, sobre a questão de ser bi, eu acho que tudo começou no segundo ano quando a minha amiga falou “ei, eu sou bi” e aí desde então eu comecei a olhar com outros olhos pra ela, porque eu sempre vi ela como uma menina hétero. eu não sei porque quando ela falou que era bi, alguma chave virou em mim e eu fiquei pensando muito nisso, eu olhava pra ela, assim.. sabe? 

Acho que uma das coisas que mais pega é que eu me considero alo [alossexual], mas de uns tempos pra cá, eu venho me questionando e o que sempre me pegou é que eu nunca

senti atração por meninas, mas de um tempo pra cá, eu percebi que eu nunca senti [atração sexual] por meninos. 

Isso foi sempre muito natural, eu ficar com meninos, porque era o que tinha, sabe? eram sempre eles que vinham até mim. quando eu comecei a sair pra festa e tive a oportunidade de ficar com meninas, eu pensei “ok, eu me sinto super confortável, é isso, sou bi”. foi bem simples na verdade, mas eu acho que a questão de sentir atração [sexual] é um referencial muito forte dentro de se descobrir pra outras pessoas, sabe? e o que acontece quando tu não sente atração [sexual] por nenhum dos dois [gêneros binários], entendeu? 

Eu sempre fiquei pensando nisso, mas foi muito tranquilo me aceitar também, mas acho que não sentir atração que eu acho que é o mais complicado pra uma pessoa conseguir se assumir bi e ace, sabe? de certo modo, mesmo eu ainda sendo questionadora sobre a minha sexualidade em si, de ser ace ou não. 

Mojo: Complicado mesmo, sabe? É interessante até falar sobre isso que você tava falando, de ficar com meninos porque era o que tinha, aí a gente entra na questão da heterossexualidade compulsória, né, porque querendo ou não, isso vai influenciar a gente, sabe? quando eu era criança, eu fingia de gostava dos meninos pra, tipo, me enturmar, sabe, com as garotas. 

Eu sempre ficava tentando achar algum garoto pra eu falar que eu gostava, só pra eu conseguir ter um assunto com as meninas. e era horrível, chegou num ponto em que eu não tinha interesse em ninguém. 

Com o tempo, conforme eu fui crescendo e tudo mais, eu comecei a ter certos interesses nas pessoas, mas esse interesse não tem nada a ver com gênero. eu sou muito mais uma pessoa de se interessar pelo estilo da outra, pela maneira que ela se veste, como ela se comporta, como ela arruma o cabelo, ou sei lá, do que de qualquer característica física ou enfim, isso eu fui desenvolvendo com o tempo, é. 

De qualquer maneira, se entender como aroace é uma coisa muito confusa, porque você tem que entender muita coisa, porque querendo ou não, as outras comunidades não falam sobre a diferença da atração sexual pra romântica e no máximo vão querer falar da diferença de querer transar pra se apaixonar e muitos associam como se fosse uma coisa só ou como se um dependesse do outro e não se fala sobre atração estética, atração romântica, atração queerplatônica, atração sensorial, atração física, atração intelectual, são várias, né. 

E é bem difícil mesmo se entender e sair do armário é a cada passo uma nova dificuldade, sabe? e eu não to falando que sair do armário ou se entender de outras identidades queer seja menos difícil, mas quando eu comparo dentro da minha pessoa, dentro da minha realidade, foi muito fácil [risos]. a aro foi a mais difícil, sabe? e no final das contas, ser bi pra mim é uma coisa assim, super normal, não existem questionamentos da minha parte e ser ace, eu sou estrito, então, tipo assim, não, sabe? 

Mas ser aro ou até ser trans, às vezes eu me questiono bastante, sabe? talvez por serem identidades que você tem que entender demais nas coisas, você tem que ir a fundo demais,

tem que pesquisar demais, se entender demais, tem que entender seus processos de uma maneira muito profunda e isso é muito difícil de se fazer, sabe? 

E eu me analiso sempre, eu to sempre me analisando, eu to sempre tentando entender o que eu sinto, porque eu sinto as coisas assim…. tem gente que não faz isso e tenta se entender enquanto uma pessoa totalmente caótica que não pensa sobre nada.. deve ser horrível. 

Eduarda: não sei se as outras comunidades perdem muito por não falar sobre isso, sobre não diferenciar os tipos de atração, sabe? porque deve ter muita gente que deve achar difícil se entender bi e não se questionar, sabe? é o que tu falou, dá pra ser bi e ser ace, dá pra ser lésbica e ser ace, realmente se identificar aro é um pouco mais um processo mais complicado porque enveolve outras pessoas e envolve a si mesmo e você passa por julgamentos e opressões e toda a influência que de filmes e uma cultura em cima de ti, ser bi foi a parte mais fácil, foi, tipo, super ok. 

Morfeu: Sim, eu me descobri multi aos 13 anos e foi muito fácil, foi um processo assim, mental de descoberta muito fácil, nem se compara com quando eu me descobri ace ou aro, porque tanto a minha auto aceitação, quanto de perceber o que era e tudo mais, não teve aquela questão de estudar, de refletir, de refletir mais um pouco ainda, como foi com aro e ace, então foi muito mais tranquilo, porque eu me percebi rápido, me aceitei rápido, porque a gente já tem uma percepção assim do que é, de multi, bi e tal. 

A gente já sabe o que é, já tem uma noção, então não precisa daquela reflexão, de como é com assexual e arromântico. Até porque, os conceitos de assexualidade e arromanticidade são mais complicados para entender. Então exige um estudo maior de atrações, é mais profundo. 

[Música] 

Morfeu: Também queria comentar sobre a comunidade LGBT, aquela frase “Love is love”, eu odeio essa frase pra comunidade, porque não representa sabe, tem muito mais coisa além de “Love is Love”, então até dentro da comunidade LGBT a gente tem essa dificuldade imensa de se encontrar, de se achar, de se descobrir e se assumir. 

Porque o amor romântico é tão enraizado assim na sociedade que até onde você seria teoricamente livre, você não é! Porque para as pessoas parece que é assim “Amor é amor e você tem o direito de amar” e não é assim, não é tudo sobre amor, é muito mais coisa! É direito de existir, é direito de ser, é direito assim, de se compreender, de se respeitar e de receber respeito e tudo mais. 

Mojo: O que eu posso falar, se alguém estiver ouvindo, é que sair do armário é uma coisa muito difícil, você não precisa de obrigar a sair do armário. No final das contas vão ter momentos em que as pessoas vão te aceitar muito bem,mas vão ter momentos que elas vão reagir muito mal, essa é a realidade.

Você não é obrigade a sair do armário pras pessoas, ninguém tem essa obrigação, o interessante é sair pra você mesmo, pras pessoas que você se relaciona também, é muito importante falar sobre isso pra elas não ficarem inseguras e criando paranóia. 

Mas você não precisa ficar contando pros outros sabe, principalmente se não for seguro pra você. Independente da sua identidade, independente se você é bi, trans, gay, lésbica, poli, gine, independente da sua sexualidade ou a sua orientação romântica, sabe? Você não tem que sair do armário, principalmente se não for uma opção segura, tudo bem você ficar quieto na sua, se não for a melhor opção pra você. Eu acho que existe uma cobrança muito grande pra gente contar pros outros o que é e eu acho isso meio não seguro, tá ligado? É um risco muito grande isso. 

Morfeu: Nossa isso é uma questão muito complexa sabe, não só quando a gente tá falando de sexualidade, ser agredido tanto verbalmente, quanto fisicamente, mas é um risco pra saúde mental também da pessoa sabe, pelo estresse que ela vai passar por toda essa situação e eu realmente acho essa questão de sair do armário muito superestimada, sabe? a gente não precisa ficar saindo do armário sabe nem usar uma plaquinha de néon na cabeça escrito “olha eu sou ‘tal coisa’”. 

Assim, não tem necessidade, a gente tem que se sentir confortável pra falar sobre isso com quem a gente quer falar sobre isso, não se sentir obrigado a sair do armário quando não queremos, na minha visão, na forma que eu lido com a minha sexualidade e essas questões, eu não vejo a necessidade de ficar saindo ou ficar dizendo “eu sou tal coisa” daquela forma dramática, eu não gosto disso sabe, eu gosto de falar quando eu me sinto confortável, não é uma questão de obrigação sabe, quando eu quero falar por um assunto que surgiu na conversa, de uma forma mais simples. 

Eduarda: Eu queria finalizar, que se você estiver se conhecendo, se você realmente se identifica com alguma coisa, saiba que tem muita pluralidade e cada caso é muito interno e as pessoas sentem de maneiras muito diferentes e o que eu falei aqui pode não saber a você, pode não ser o que você se identifica e tá tudo bem, acho que principalmente buscar muita informação e perceber como você se sente, o que pra você tá tudo bem, quero fazer isso, ou não quero e ter um amor próprio, um carinho, sabe? E saber que o que você tá sentindo é importante e nunca vai ser errado e é super válido independente de qualquer coisa. 

[Música] 

Mojo: É isso pessoal, esse foi o nosso episódio sobre sair do armário, se você tem alguma história legal ou engraçada sobre sair do armário você pode contar pra gente, ou se você tem alguma ideia de episódio, se você quiser falar alguma coisa aqui no aroaceiros, a gente convida todo mundo a participar também, você só precisa entrar em contato, pode ser por e-mail aroaceiros@gmail.com, ou pelas redes sociais, twitter, instagram, aroaceiros também. 

E por hoje é só, a gente se vê na próxima, tchauzinho. 

Morfeu: Tchau, tchau.

Eduarda: Tchau e até a próxima.

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