Invisibilidade das comunidades ace na América Latina

Texto por: Lori A. e Ravi 

Revisão: Calisto M. F.


O Dia Internacional da Assexualidade é uma data que surgiu diante da demanda de países de todo o mundo por uma data que considerasse a diversidade cultural das assexualidades, abandonando o enfoque exclusivo em países anglófonos (em específico EUA e Inglaterra). A partir dessa mesma premissa, de deslocar o centro de debate da comunidade de apenas esses países para o mundo, nós do Aroaceiros resolvemos celebrar esse primeiro DIA disparando uma discussão voltada às comunidades latino-americanas. Acreditamos que esse tema seja necessário por diversos motivos, mas principalmente para construir um diálogo entre a comunidade do nosso país e as comunidades dos países vizinhos, identificar as nossas demandas e construir uma comunidade ace cada vez mais descolonizada.

Diante isso, decidimos primeiramente entrar em contato com outras organizações e ativistas ace da América Latina para coletar respostas de três perguntas base:

  1. Como é a relação entre as comunidades assexual e LGBTQIAP+ no seu país?
  2. O quão visível é a assexualidade no seu país?
  3. O que você percebe de diferente na visibilidade e nas pautas das comunidades assexuais latinas em oposição às comunidades assexuais da Europa e dos Estados Unidos?

Conseguimos respostas de 11 ativistas de 7 países diferentes*, o que parece um número pequeno considerando que a América Latina é composta por 20 países, mas que na verdade é surpreendente, considerando que são poucas as organizações ace ativas por aqui. As respostas foram das mais variadas, algumas trazendo questões que nós ainda não tínhamos considerado, outras abordando temas que já esperávamos ver.

Com isso em mente, convidamos todes a pensar sobre essas questões e a sair da habitual perspectiva anglocêntrica sobre a assexualidade.

  • Assexualidade dentro da comunidade e ambientes LGBTQIAP+

Diante da nossa primeira pergunta, recebemos respostas que falavam sobre um cenário de negação por parte da comunidade LGBTQIAP+ em relação a pessoas ace. Mas como e por que isso acontece? Qual a reação de pessoas ace enquanto indivíduos diante desta situação? Como a comunidade LGBTQIAP+ em si reage ao moralismo que parte de alguns aces?

A primeira resposta que recebemos, que foi da organização Aces El Salvador, abordou a ausência da relação de comunidade entre ambos os espaços, o que nos leva a pensar a comunidade ace como algo isolado da comunidade LGBTQIAP+. Assim como todas as outras letrinhas da sigla, nós também temos uma comunidade separada nossa, mas a nossa comunidade ainda é bastante pequena e recente na América Latina, se comparada com comunidades do norte global. O fluxo de criação de páginas exclusivamente sobre a assexualidade tem sido cada vez maior, mas dificilmente vemos essas páginas se mantendo por muito tempo, e geralmente se restringem a apenas uma ou duas redes sociais. Com isso, é difícil de se estabelecer um diálogo intra-comunidade, e um diálogo com outras comunidades acaba sendo algo ainda mais distante.

Como consequência dessa falta de alcance dos debates e problemas enfrentados por pessoas ace latino-americanas, surge uma negação da própria comunidade LGBTQIAP+ em relação a comunidade ace. Como a nossa comunidade ainda não foi bem estabelecida na América Latina, uma única pessoa ace levantando suas questões acaba tendo elas interpretadas como “problemas individuais”, não políticos. Diante disso, nos vemos em um cenário de ridicularização e banalização das nossas vivências por parte de quem nós esperávamos acolhimento e compreensão.

“Estamos em um grupo pequeno a parte de tudo o que é a comunidade em si, e a comunidade por igual dificilmente tem tentado ver como ajudar aces a sairem mais à luz.” — Aghata J. Brooks (@AghataJBrooks) / República Dominicana 

Esse constante “esquecimento” de pessoas ace em pautas LGBTQIAP+ e o risco de, ao entrar em contato com algum grupo de inclusão, serem ridicularizadas, fazem com que muitas pessoas ace se sintam inseguras nesses espaços. Como não temos garantia de que vamos ser aceites, respeitades e compreendides dentro de tais locais, ou mesmo por correr o risco de que as pessoas sequer saibam o que é assexualidade, acabamos muitas vezes preferindo nos manter isolades.

Outra questão que faz com que aces se direcionem em um movimento de afastamento em relação às comunidades queer é a hiperssexualização. Por diversas questões sociais, históricas e políticas os ambientes queer latinos acabam sendo bastante sexualizados. Muitas pessoas LGBTQIAP+ foram e são muito reprimidas quanto a sua expressão da sexualidade e desejos sexuais, além de historicamente a mídia em si reforçar uma imagem fetichizada e/ou hiperssexualizada nossa, então é apenas esperado que essa questão esteja presente nesses espaços.

Para algumas pessoas ace, que procuram por um espaço que fuja da alonormatividade e assuntos relacionados a ela, que estão presentes em todas as esferas no dia a dia, tais ambientes podem ser difíceis de lidar. Essa questão é extensa e um dos maiores pontos de discordância interna na comunidade ace, sendo assim necessário muito mais do que apenas um parágrafo para abordá-la.

Em reflexo à essa situação em que aces ficam “machucades” com ocorrências de rejeição da comunidade LGBTQIA+ em relação a pessoas assexuais, em especial aces heterorromânticas, surge um moralismo  dentro de alguns grupos e espaços ace. É possível observar através de relatos pessoais em diversas plataformas, que muites assexuais acabam por se alinhar a movimentos religiosos ou conservadores pela falta de identificação em espaços hipersexualizados e pela exclusão em espaços LGBTQIAP+ que deveriam ser inclusivos, assim reproduzindo e se alinhando à ideias e preceitos que ferem outras identidades e realidades queer. E por realidades queer devemos lembrar que isso afeta a própria comunidade ace, que possui uma imensa quantidade de intersecções com outras identidades.

A combinação dessas duas experiências leva a defesa, por parte de alguns aces, de que devemos nos manter separades. Essa ideia separarista por si só é uma bastante deturpada, até porque historicamente sempre estivemos presentes nesses espaços de resistência como pessoas monodissidentes.

Como tudo tem consequências, em oposição a esse moralismo de muites aces com pessoas alossexuais LGBTQIAP+, que também buscam segurança para expressar sexualidade de forma livre, acaba que a comunidade assexual por inteiro carrega uma reputação negativa e é frequentemente associada com agendas conservadoras aos olhos de algumas pessoas e grupos ativistas queer. Associações com conservadorismo, moralismo, celibato e outras ideias deturpadas quando a assexualidade são facilmente espalhadas e, claro, isso prejudica diretamente todas as outras pessoas ace em algum grau, que acabam sendo estereotipadas e associadas a questões que nos oprimem diretamente.

No fim acabamos muito preses em um ciclo de desconstruir estereótipos negativos, espalhar informações e definições básicas sobre assexualidade e lutar por um mínimo de respeito e reconhecimento. Com esse trabalho repetitivo e constante, que se faz ainda muito necessário, é um desafio imenso conseguir abordar pautas ace que vão além e realmente englobem nossos problemas urgentes, como a patologização, terapias de reorientação sexual, estupro corretivo e acefobia em geral.

A cada vez que nos apresentamos a outras pessoas temos que, além de sair do armário, voltar à estaca zero de explicação básica. Por isso nossas pautas acabam sendo, então, desconhecidas ou desconsideradas, inclusive em discussões LGBTQIAP+

“Muitas vezes a atitude é mais próxima de algo como, ‘ok, vocês estão aqui, mas não passam por problemas reais, certo? Só não querem transar, certo?!’ O que, por si só, traduziria uma não compreensão das pautas e demandas da comunidade ace.” — Walter (Coletivo AbrAce) / Brasil

Em contrapartida, Ases & Aros Chile, Nicolás (AgruPAS — Argentina) e Fede (AgruPAS — Argentina) nos trouxeram uma perspectiva diferente de outres ativistas e organizações entrevistadas, uma mais positiva de que, apesar da nossa vivência ainda ser muito desconhecida dentro da comunidade LGBTQIA+ como um todo, cada vez mais somos bem recebides e alcançamos mais espaços de visibilidade como parte da comunidade. Aqui no Brasil, por exemplo, temos o TODXS, que é uma organização LGBTQIAP+ grande e que está sempre apoiando as comunidades ace e aro, muitas vezes indo além das definições básicas e gerando conteúdo que realmente traga visibilidade para as nossas demandas.

  • (In)visibilidade ace na América Latina

A comunidade assexual como um todo é relativamente nova, considerando que o grupo mais antigo voltado à assexualidade tem em torno dos seus vinte anos de história. Por mais que a assexualidade seja uma identidade que sempre existiu e se manifestou no ser humano, sendo ela rotulada com esse nome, outros ou nenhum, a comunidade ace como uma organização de sujeitos ainda é muito recente e carece de visibilidade, e isso fica ainda mais evidente na América Latina.

Os debates LGBTQIAP+ latino-americanos ainda usam de pautas estrangeiras com frequência, mas já é perceptível que a América Latina tem sua própria história queer sendo construída e resgatada há muito tempo, com movimentos que foram se organizando e recebendo algum tipo de visibilidade. Mesmo sofrendo com muitas fake news e moralismos, eles têm seus próprios termos (sejam de cunho identitário ou ofensivo) e sua construção como comunidade latino-americana bem estabelecida, mas a comunidade assexual ainda está muitos passos atrás nesse quesito.

A comunidade assexual, como conhecemos hoje, tem uma origem mais recente, associada a países anglocentrados e ainda usa de termos, estudos e decisões feitos por pessoas dessas regiões, sem muito contato com a realidade de países emergentes e regiões afetadas pelo colonialismo. Além disso, outra característica diferente, tanto das comunidades queer latino-americanas como de algumas comunidades ace anglófonas, é a presença quase que exclusivamente digital da comunidade assexual latina.

Esse âmbito mais digital deveria, em teoria, expandir os debates acerca da assexualidade e as necessidades da comunidade a outros países e regiões do planeta, mas ainda existe uma lógica anglocêntrica que nos impede de alcançar a mesma visibilidade nas comunidades assexuais espalhadas pela América Latina, África, Ásia e, até mesmo Oceania. Da mesma forma, percebemos que países falantes de inglês conseguem fazer parte de debates que não alcançamos.

Um exemplo muito grande disso, é a necessidade atual (e já explorada anteriormente) da nossa comunidade ser reconhecida como parte da comunidade LGTBQIAP+. Ou até mesmo, que reconheçam a assexualidade como uma identidade válida dentro do contexto latino-americano. Quando olhamos para as comunidades de fora, percebemos que já lutam muito mais em um âmbito político, levando esses debates mais a fundo em espaços LGBTQIAP+, participando de grandes eventos e lutando por mudanças em leis ultrapassadas que prejudicam assexuais em seus países.

“O problema é que muita da visibilidade que existe, ainda é caricata. O termo definitivamente é conhecido por pessoas que atuam com diversidade sexual e de gênero, mas ainda assim, acredito que temos muitas barreiras para romper.” — Walter, Coletivo AbrAce / Brasil

Ainda existem muitos mitos e desinformações sendo espalhados sobre a assexualidade. Desde associações à doenças, falta de hormônio, transtornos psicológicos e traumas até confusão com celibato, ideias moralistas e conservadorismo. Alguns desses mitos, senão todos, ajudam todos os dias no afastamento de assexuais do resto da comunidade queer latino-americana. Muitas pessoas sequer sabem o que é assexualidade e quando tentam pesquisar por conta própria se deparam com toneladas de desinformação, sendo a própria definição básica mostrada pelo Google, errada.

Quando comparamos essas realidades com as de aces de países do norte global ocidental, vemos como nosso debate aqui ainda fala de pautas já deixadas de lado ou não tão presentes nessas comunidades “gringas”. Mais do que isso, ainda que a visibilidade assexual seja mínima em comparação a outras identidades queer (que também  carecem muito de visibilidade) no mundo todo, no nosso continente essa visibilidade é ainda menor.

E quando falamos dessa visibilidade menor, não é só sobre como nossa comunidade é vista e percebida dentro da América Latina, mas também como a comunidade assexual latino-americana é vista e percebida pelo resto da comunidade assexual. De ambas as formas, nossa visibilidade ainda é muito pequena, mas felizmente vêm aumentando de forma gradual.

“Características comportamentais específicas do Brasil, como a dicotomia representada por hipersexualização X moralismo (muitas vezes até associado a preceitos religiosos) tornam o diálogo sobre assexualidade ainda mais difícil, e a tarefa é árdua para que não haja enviesamento de nossas pautas por alas conservadoras da sociedade ao mesmo tempo que “temos” que provar que não estamos tentando podar liberdades sexuais quando denunciamos toxicidades produzidas pela alonorma.” — Sara, Coletivo AbrAce / Brasil

Outra questão que nos prejudica dentro dos debates sobre assexualidade nos países latino-americanos, como respondido pela Sara, do Coletivo AbrAce e abordado anteriormente no primeiro tópico, é a associação errônea da identidade à preceitos moralistas e conservadores. Não só isso, mas também a uma noção distorcida de que assexuais querem forçar todes a serem assim e que querem limitar as liberdades, conhecimentos e eduação sexuais de outres, quando na verdade, esses preceitos surgem de ideias como “assexuais são celibatários” ou “não sentem vontade de transar”. Ideias essas que não refletem o verdadeiro significado de assexualidade e as vontades e necessidades reais de assexuais.

Mais um obstáculo que enfrentamos em referência a um trabalho de educação e visibilidade é a barreira geográfica. Creio que o lugar com maior concentração de ativismo é Buenos Aires, a capital da Argentina.” Nos disse Pupi, do coletivo argentino AgruPas. Elu também complementa que em relação a outras províncias dentro do país “[…] é mais difícil o alcance de informação e inclusive encontrar outras pessoas asexuais para poder gerar uma interação e uma rede de contenção entre pares. Em Buenos Aires ainda temos um grupo para organizar reuniões, mas esse é um privilégio que outres não têm.”

Os debates assexuais ainda se concentram nas grandes capitais na maioria dos países latino-americanos e, como disse Pupi, a informação acaba sendo ainda mais escassa em regiões interioranas e cidades pequenas. Quando pensamos que mesmo em grandes metrópoles e cidades a desinformação ainda circula constante e livremente, essa realidade é ainda mais evidente em cidades pequenas, isso quando existe algum tipo de debate ou conhecimento em relação a assexualidade nessas regiões.

E em se tratando da nossa realidade latina, seja nas capitais metropolitanas ou em cidades do interior, existe ainda uma ausência de personalidades e grupos ativistas assexuais.

Uma ou outra pessoa pode até fazer algo individualmente, mas acaba se perdendo na multidão” — Aghata J Brooks / República Dominicana  

Rodeades de desinformação acerca das nossas identidades, sem pessoas e organizações que possam ser referência de informação correta e sirvam de exemplo ou inspiração para mostrar que nós existimos e temos possibilidades de uma vida boa e feliz, existe uma solidão e carência assexual que não pode ser resolvida apenas com poucas matérias sensacionalistas, representatividade midiática irresponsável e entrevistas editadas sobre o tema. Ao mesmo tempo, a superexposição associada a ser uma figura pública de movimento ou causa queer afasta as pessoas de quererem se colocar nesse tipo de posição, não só pela associação a desinformações perigosas, mas também pelo risco de ataques cibernéticos ou mesmo violências presenciais de pessoas preconceituosas e exclusionárias.

Mesmo assim, ainda existe um movimento crescendo timidamente nos nossos países latinos e com cada vez mais frequência, diferentes pessoas que têm algum tipo de influência revelam ser assexuais publicamente. Nossa comunidade vem criando aos poucos mais e mais espaços de debate sobre nossas identidades ace, através da criação de coletivos, que protegem mais a imagem de ativistas, e alcançam mais plataformas e pessoas. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido!

  • Europa e Estados Unidos como centros de conhecimento sobre as assexualidades

Indo um pouco mais além do tópico anterior e introduzindo a nossa terceira pergunta disparadora, “o que você percebe de diferente na visibilidade e nas pautas das comunidades assexuais latinas em oposição às comunidades assexuais da Europa e dos Estados Unidos?”, uma resposta presente em quase todas as falas de entrevistades foi: os EUA e países europeus tem uma trajetória de ativismo maior e, por isso, quase todo o conteúdo que vemos na América Latina é importado de lá. 

Exageradamente podemos dizer que é um fato que as comunidades ace latinas são, em sua maioria, pautadas em traduções e difusão de conteúdo online, raramente realizando algum evento, entrevista, palestra ou encontros informais presenciais. É difícil encontrar pessoas ace que afirmem que já conheceram outre ace fora da internet. Esse contexto por si só já gera uma atmosfera de distância da realidade, como se debates ace e a própria assexualidade em si fossem existentes apenas em um plano virtual, recentes, ou, como alguns acefóbicos gostam de repetir erroneamente: “invenção da internet”.

Tal argumento — fraco e infundado, deve-se dizer — poderia ser facilmente rebatido com uma série de documentos, livros, artigos e outras fontes históricas que apresentam menções diretas e indiretas da assexualidade ao longo dos últimos 100 anos. Mas quantas dessas fontes estão traduzidas para espanhol ou português? Quantas dessas fontes são de locais que não os EUA e Reino Unido? O quão acessível são esses textos para pessoas latinas? O quanto esses textos contemplam sociedades e culturas latinas? Acho que a resposta dessas perguntas já está evidente.

As traduções desses conteúdos são sim muito necessárias e importantes, mas esses conteúdos importados, e que servem para nos “validar” numa perspectiva global homogênea das vivências ace, não contemplam integralmente as nossas realidades, culturas e contextos sociopolíticos de luta enquanto parte das comunidades queer latinas. Acima de tudo, é necessário o resgate e construção das nossas próprias histórias ace em território latino-americano.

Há quem arrisque dizer que não temos esses documentos históricos porque eles não existem, mas será que isso é verdade? Ou será que ainda não foi viável, não houve demanda ou interesse o suficiente para correr atrás disso? Será que as comunidades anglófonas são realmente mais antigas e tiveram mais tempo de se estruturar como comunidade? Ou, justamente por terem se estruturado como uma comunidade um pouco mais cedo que nós, já tiveram tempo o suficiente para resgatar essa história? Ainda não temos as respostas para essas perguntas, que exigem muito mais pesquisa. Mas sabemos que, de fato, há mais tempo de comunidade estabelecida e material educativo sendo construído pela, para e sobre as assexualidades nos EUA e Reino Unido.

“Estamos em uma etapa de difusão, em que o público que não é a comunidade ainda está conhecendo a assexualidade, enquanto em outros lugares nos quais o ativismo tem uma trajetória maior e onde tem mais material em seus próprios idiomas, tanto de leitura como audiovisual em geral, os objetivos colocados e a postura do ativismo vai mais além da difusão, podendo centralizar o foco em temas de proteção legal e inclusive oficializar uma semana do espectro assexual em outubro.” — Nicolás, AgruPAS / Argentina

Isso por si só já os coloca diante de um outro leque de possibilidades de debates sobre as assexualidades, mais específicos e centrados política e socialmente em contextos próprios de lá. Tais países também estão em uma evidente posição privilegiada de “referência internacional” e de “origem” de conhecimento e definições sobre as assexualidades. São esses conhecimentos desses países que acabam sendo utilizados como parâmetro universal do que é “certo” e “errado” se tratando das vivências ace, mesmo que algumas vezes não sejam exatamente compatíveis com realidades internacionais.

Ao pautar nossas comunidades em moldes e definições de outra cultura, muito das nossas vivências acaba por não ser contemplado e nos vemos apenas em um contexto de “importação” de conhecimento pronto, ao invés de construir nossas próprias definições e conhecimentos. Por fim é possível ir mais a fundo e afirmar que os nossos debates e a nossa comunidade ace como um todo, em especial no Brasil, foram construídos sob uma ótica bastante colonizada, desconsiderando nossa cultura, nossa política, nossa sociedade, nossa história e, de uma maneira geral, nossas pautas e prioridades.

Nós muitas vezes enxergamos os EUA e Europa como territórios “evoluídos”, “adiantados”, “melhores” e esta noção, existente não apenas na comunidade ace como também em toda a origem de um pensamento colonial na América Latina, acaba por nos desviar do que realmente é necessário ser debatido em nosso país. Dedicamos muito tempo e energia replicando realidades exteriores e acabamos apagando as nossas. 

Não adianta levantarmos pautas estadunidenses e europeias, não adianta lutar apenas por problemas enfrentados por aces de países gringos e deixar a própria realidade ace latino-americana e suas especificidades em segundo plano.

“Uma questão que vejo diferente no Brasil, é que a nossa comunidade parece entender com mais facilidade uma fluidez dentro da própria comunidade ace, mas mais do que no exterior, percebo que as pautas da nossa comunidade parecem ser marcadas por percepções de gênero e como isso pode influenciar na percepção de masculinidades e feminilidades, especialmente dentro de uma cultura latina que percebe papéis de gênero de forma machista.” — Walter, Coletivo AbrAce / Brasil

  • Conclusão

Após escutar opiniões de pessoas de diversos países da América Latina, pensar e refletir acerca de tais falas e vivências (com a nossa ótica Brasileira), foi interessante perceber como o colonialismo também está muito presente também na nossa relação, como comunidades ace latinas, com toda a produção de conteúdo sobre assexualidade. Talvez seja até mesmo possível uma pesquisa mais aprofundada sobre a possibilidade da nossa dificuldade de inserção em meios queer latinos partindo dessa perspectiva. De que, por ainda nos restringirmos muito a uma visão anglocêntrica, temos certas barreiras culturais nos impedindo de nos interligar como comunidades.

É interessante também pensar que o reconhecimento de pessoas assexuais dentro de espaços LGBTQIAP+ é algo muito variante. Alguns representantes disseram que em seus países há preconceito dentro da comunidade e rejeição. Mas em outros países, se tratando principalmente de grupos ativistas, há boa relação. Mas isso também nos leva a novos questionamentos: e no social em geral? Como será que a comunidade LGBTQIAP+ fora de espaços de ativismo nos compreende? Ser reconhecido por coletivos, ativistas e organizações é um ponto muito positivo, mas pela comunidade em si é um passo ainda mais adiante que ainda estamos buscando alcançar.

Em relação a invisibilidade da comunidade assexual, ela é nítida em nível mundial, mas quando olhamos para um contexto latino-americano, essa invisibilidade ganha outras características marcadas por exclusividades culturais da nossa parte. 

O fato da América Latina ter sido construída sobre pilares coloniais e ainda se sustentar muito nisso, gerando apagamentos culturais em grande escala através de uma lógica de inferioridade intelectual, nos prejudica em todas as esferas. Os preceitos impostos de forma radical e agressiva pela colonização ainda estão presentes no nosso dia a dia e moldam nossa forma de ver o mundo, ainda ditam as maneiras como devemos nos portar e alimentam preconceitos por aqui.

Em relação a assexualidade isso não é diferente. Ela ainda é desconhecida, e quando reconhecida se torna alvo de todos esses preconceitos em que se fundam a normatividade e, se tratando de conhecimento intelectual, nossa maior fonte vem de fora, de países cujo cenário histórico-cultural é muito diferente.

Nossa comunidade sofre com silenciamento em duas esferas: como comunidade assexual dentro do contexto latino-americano, com menos informações sobre o tema e maior dificuldade para alcançar as que vem de fora e, também, um silenciamento a nível global, por ser uma comunidade que vem da América Latina, um território que por si só é invisibilizado por outros continentes e atacado com informações falsas e mitos sobre nossas culturas.

Por outro lado, às vezes podemos ter a ilusão de que a assexualidade é muito visível e está em pé de igualdade com a visibilidade das outras letrinhas da comunidade LGBTQIAP+ em países do eixo EUA-Europa, mas, apesar da situação lá poder ser considerada um pouco mais positiva que a nossa, proporcionalmente falando, ainda assim é algo ínfimo.

Um grande exemplo disso é a própria AVEN, conhecida como a maior fonte de informações ace no mundo, sequer ter contas verificadas em redes sociais. A comunidade assexual em si foi quase que inteiramente estruturada em fóruns da AVEN, então essa situação da verificação, apesar de parecer não ser muito importante aos olhos de alguns, passa uma mensagem bem nítida: a importância da assexualidade e de debates acerca dela não é reconhecida ou importante.

E para finalizar, voltando ao nosso enfoque latino-americano, é importante frisar que temos questões exclusivas que não fazem sentido ou não têm relevância em outros países, e da mesma forma eles também tem questões específicas que não nos contemplam. Nos cabe apoiá-los e ajudar a amplificar essas vozes para que suas demandas alcancem nossos territórios, mas essa tem de ser uma via de mão dupla, de apoio mútuo, que é o ponto principal pelo qual estamos lutando através dessa data simbólica do Dia Internacional da Assexualidade.

Mais do que promover uma “globalização” através de uma falsa ideia de homogeneidade mundial das vivências ace, o que buscamos é pontuar essas diferenças culturais, étnicas e históricas e construir uma rede de ACES, de ativismo, celebração, educação e solidariedade, nos unindo e amplificando nossas variadas vozes por todo o mundo.

O Aroaceiros deseja a todes vocês que chegaram até aqui um feliz Dia Internacional da Assexualidade. Esperamos que estejam aproveitando, compartilhando e aprendendo mais sobre a riqueza de diversidade dentro desse vasto pluriverso assexual — porque se tratando de pluralidade não faz sentido ser apenas universal!


*Agradecimento especial a Aces El Salvador, Aghata J. Brooks, Brujita, Aspec Ecuador, Ases & Aros Chile, Sara e Walter do Coletivo AbrAce e Nicolás, Fede, Notxe e Pupi do AgruPAs por nos ajudarem com suas respostas e, assim, permitirem que esse texto fosse bem estruturado e escrito! 


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