A Problemática da (falta de) Representatividade Arromântica

Escrito por Lori A.

No dia 13/02/2022 foi organizado no Twitter do Aroaceiros um Spaces para debate sobre o tema da representatividade aro, especialmente na mídia. Durante essa longa conversa, que alcançou surpreendentes 3h de duração sem nem chegar perto de esgotar o assunto, um ponto que acabou sendo constantemente evocado foi a autodescoberta. 

Apesar de serem assuntos diferentes, os dois temas andam sempre lado a lado e se cruzam em diversos momentos. Afinal, um dos motivos pelos quais a representatividade é importante é justamente viabilizar que as pessoas se identifiquem com aquilo e possam se descobrir e aceitar mais facilmente.

Pensando em uma definição de representatividade como uma figura que expresse de alguma maneira os interesses de um grupo político/social, já fica evidente que a representatividade é, sobretudo, um trabalho de grande responsabilidade. 

A representatividade na mídia tem um papel de extrema importância em construir uma identidade para aquele grupo de pessoas, no nosso caso, de arromânticos. Ao representar a comunidade arromântica, seja você enquanto pessoa falando em uma palestra ou você enquanto artista criando um personagem, isso requer muita responsabilidade e estudo. É algo que vai além do conhecimento de vivência. 

Mesmo uma pessoa arromântica está sujeita a cometer erros ao falar de arromanticidade. Esse foi um dos tópicos mencionados no Spaces inclusive, sobre as inseguranças de escritores arromântiques em, apesar de serem aro e terem toda uma carga de vivência por trás, cometerem erros, promoverem estereótipos negativos ou deixarem de lado o papel da diversidade, dando a entender que a vivência arromântica é singular.

É importante ter em mente que nenhum grupo é constituído de uma só vivência, e isso é ainda mais notável quando falamos dos espectros arromântico e assexual. Afinal, como o nome mesmo diz, é um espectro rico em experiências diferentes que não são passíveis de serem resumidas em uma experiência única. Esse é um desafio imenso na hora de representar um personagem aro na mídia, por exemplo.

Mas e aí, Lori? Como a gente pode então representar um personagem arromântico sem cair em generalizações, estereótipos e cometer erros em geral?

A resposta para isso não é exata, já que tratar de um processo criativo não tem “caminho certo” ou receitinha de bolo a ser seguida, mas existem caminhos a serem evitados e formas de se organizar para não acabar caindo acidentalmente em uma representatividade ruim ou rasa, que muitas vezes não representa nada.

As dicas que posso dar, como pessoa arromântica e como escritora, servem tanto para alorromânticos que querem escrever personagens arromânticos como para arromânticos que estão enfrentando dificuldades e inseguranças quanto a escrita de personagens arromânticos, apesar de serem aro. E não se enganem, como eu disse, não há caminho certo, logo não farei um tutorial de “como representar personagens arromântico sem erro nenhum”, vou apenas tentar comentar brevemente o que é legal e o que não é legal fazer. Até porque o tema desse texto ainda requer espaço para muitas outras reflexões serem levantadas! Quem sabe em outro post futuro não elaboramos dúvidas específicas mais profundamente? 

Primeiramente, uma dica que serve para qualquer minoria que é frequentemente desumanizada, como no caso de arromântiques: evite colocar esses personagens como seres não humanos. Caso você queira, por exemplo, representar um robô arromântico ou algo do tipo, sempre é uma boa alternativa trazer um outro personagem na história que seja humano e arromântico. Dessa maneira você não propaga aquela ideia de que romance é uma característica inerentemente humana e que quem não sente atração romântica está fora dessa categoria.

Nesse mesmo caminho, é sempre uma boa ideia colocar ao menos mais um personagem arromântico com uma vivência diferente do outro na sua história. Trazer diversidade de exemplos de como é um arromântico ajuda a quebrar qualquer interpretação que tome uma única experiência como regra. 

Além disso, planeje antes como você quer que esse personagem seja representado, faça perguntas e liste características dele e das outras atrações que ele possa sentir. Pense como ficam as intersecções entre a arromanticidade e questões de raça, gênero, sexualidade etc. Algumas perguntas que podem te guiar são: o personagem sabe que é arromântico? Como ele se descobriu? Em que parte do espectro ele está? Como ele lida com a própria arromânticidade? Ele é assumido? Qual a relação do seu personagem com o romance? Como ele se expressa afetivamente? Quais são os limites para ele dentro das relações? De que formas ele se relaciona? Tenha essas respostas em mente que vai fluir bem melhor!

Também é muito importante pensar como ficam as intersecções entre a arromanticidade e questões culturais, de raça, de gênero, de sexualidade etc. Antes de começar a escrever, reflita sobre como essas outras características do personagem podem atravessar a vivência arromântica. Pesquisar por relatos de pessoas que vivem essas intersecções também é uma boa saída, principalmente se é algo que você não vive. Exemplificando, eu sou uma pessoa branca, minha vivência arromântica com certeza é afetada de formas diferentes de uma pessoa aro preta. Se eu for escrever sobre essa vivência o ideal é que eu busque estudar sobre como é a experiência de uma pessoa preta arromântica, ler o que essas pessoas falam sobre isso, como se dão as questões afetivas nesse cenário. Somente assim poderei entregar uma boa representação.

Para não me estender muito nisso, as últimas dicas que deixo aqui são: converse com pessoas arromânticas e, se for possível, busque uma leitura sensível arromântica. 

Seguindo adiante, quando perguntado no Spaces sobre “o que vocês já viram de representatividade aro por aí?” A primeira resposta obtida foi o silêncio, que demonstra muito bem o próprio silêncio da mídia em relação à arromanticidade, frequentemente esquecida. As respostas que vieram após se resumiam a 1 ou 2 livros com personagens arromânticos publicados em grandes editoras no Brasil e algumas obras publicadas de forma independente. Obras estrangeiras também foram mencionadas, mas o que achei mais curioso foi o fato de quase todos, senão todos, os exemplos mencionados serem livros que foram escritos por pessoas arromânticas. Ficou evidente que se não formos nós a construirmos essa representatividade, ninguém mais irá, e isso é de uma responsabilidade imensa. Além disso, não haviam séries, filmes, novelas, animes ou qualquer mídia do audiovisual a serem citadas pelas pessoas presentes. 

Quando falamos dessas obras, algo que foi percebido também foi a falta de personagens arromânticos que não fossem assexuais também. Parece que a arromanticidade está sempre à sombra da assexualidade, que ela é característica exclusiva de assexuais etc. Mas onde está a representatividade para os arromânticos alossexuais? Onde estão os próprios arromânticos alossexuais? Pois sabemos que existem muitas pessoas “aroalo” por aí que acabam ficando invisibilizadas dentro mesmo da comunidade e se afastam ou não se sentem confortáveis de falar sobre as próprias experiências, que chegam até a ser estigmatizadas por algumas pessoas assexuais da comunidade arromântica também. 

Esse pode parecer mais um problema de falta de diálogo e respeito interno dentro da comunidade, porém se estende à falta de representatividade também. Não apenas na mídia mas até mesmo para representantes da comunidade, como blogs, páginas e pessoas que se proponham a representar a comunidade aro em eventos, por exemplo, na hora de mencionar arromânticidade dificilmente são mencionadas as questões de pessoas arromânticas alossexuais. Essa falta de uma boa representatividade, que leve em conta a diversidade de experiências do espectro, que trate da arromânticidade como algo independente da assexualidade, é também uma das responsáveis pela invisibilização de pessoas aroalo. 

Na (quase total) ausência de personagens arromânticos e, principalmente de personagens que sejam arromânticos não assexuais e não estritos, de outras partes do espectro, acaba que algo toma espaço dentro da comunidade: headcanons. Eu até tenho um texto mais puxado para desabafo sobre o tema exclusivamente (aqui!) e uma página do Twitter que está sempre passando na minha timeline e recebendo algum engajamento é a “Todo Mundo é Aroace”, que posta quase que diariamente headcanons enviados anonimamente de personagens arromânticos e/ou assexuais.

A nós muitas vezes só resta viver uma representatividade inventada na interpretação das entrelinhas de algum personagem que deixe suas questões românticas mais “em aberto”. Na ausência de um “canon”, vivemos do “headcanon”. Não há nada de errado em ter headcanons, porém a questão que fica é: por que ainda necessitamos tanto de nos afirmarmos por headcanons? 

Não nos vemos em nenhuma mídia, não somos reconhecides para além do nosso próprio grupo de pessoas. Algo que foi mencionado no Spaces também foi como um livro com protagonismo arromântico geralmente vende menos e tem menos engajamento do que um livro com protagonismo assexual, mesmo ambos os grupos sendo altamente invisibilizados. E eu diria que isso se estende para qualquer conteúdo. Todo conteúdo focado em pessoas arromânticas parece alcançar apenas outras pessoas arromânticas e olhe lá. O problema aí é que a nossa representatividade sem alcance ela deixa de chegar em outras pessoas arromânticas que estejam fora de uma pequena bolha, pessoas que não se descobriram ou mesmo pessoas allorromânticas.

Outra questão levantada foi: a representatividade aro visa alcançar a quem? E a resposta é: a qualquer um que queira ler!

Para pessoas arromânticas a importância de ler uma história com personagens arromânticos está majoritariamente em se enxergar ali e se sentir representado. Está em perceber que a sua história também interessa ser contada, que é importante o suficiente para estar em livros, filmes, séries etc. É se enxergar e perceber que não está só, que se aquilo está ali na televisão, por exemplo, é porque alguém achou que aquela história deveria ser contada e vista. É perceber que se alguém pensou em escrever aquilo é porque existem mais pessoas no mundo que vivem isso. É enxergar, através dos personagens e das ficções, novas possibilidades para as nossas vidas arromânticas

Para outras pessoas que talvez sejam arromânticas e ainda não se descobriram, essa representatividade é ainda mais importante, e o alcance delas até essas pessoas principalmente. Não adianta nada uma história ser contada e não alcançar quem talvez mais precise dela. Ao questionar no Spaces “enquanto pessoas arromânticas, vocês sentem que se tivessem tido oportunidade de ver pessoas arromanticas nas mais diferentes mídias isso teria agilizado ou tornado menos doloroso o processo de autodescoberta e aceitação?” a resposta foi praticamente um “sim” unânime. Para alguns de nós, principalmente mais aros mais velhes, a informação sobre arromanticidade não veio de forma fácil, veio após passear por muitas outras identidades nas quais talvez nem sentíamos alguma conexão propriamente. Alguns poucos anos atrás, a maioria das informações só existiam em inglês, o que tornava ainda mais difícil para arromântiques brasileires se descobrirem.

Já para pessoas alorromânticas esse papel da representatividade aro acaba ficando mais centrado no campo “informativo”. Informar que essas pessoas também existem, que qualquer amigo seu pode ser aro e você nem sabe, que um dia você pode se relacionar com uma pessoa arromântica e é importante entender minimamente o que é arromanticidade para compreender essa pessoa etc. Mas além disso também tem um papel importante de quebrar visões amatonormativas, de gerar questionamentos quanto a isso, de abrir um novo horizonte de possibilidades afetivas para uma pessoa que, por ser alo, provavelmente não teve a oportunidade de imaginar que existem muitas formas de se relacionar e expressar amor e afeto para além da norma.

A importância de se ver representado vai muito além de gerar conforto (o que também é muito importante!) para quem já se descobriu. É importante que ela gere desconforto para quem ainda não se descobriu, seja talvez aquele gatilho alí que vai possibilitar que a pessoa revisite suas angústias e fale “caramba, agora tudo fez sentido! Eu sou arromântico e não sabia!”. É importante que ela gere desconforto também em alorromânticos que venham a refletir seus próprios afetos por outra perspectiva. A sociedade amatonormativa não afeta negativamente somente arromânticos, levantar narrativas arromânticas é também desafiar crenças amatonormativas dentro de todes, abrir os olhos para diversas questões que sempre foram obstáculos incômodos e as pessoas não param para pensar.

Para finalizar, deixo aqui alguns links de listas de livros com representatividade arromântica, pois apesar de ainda ter muito espaço para crescer, ela existe e temos ótimas obras!

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