#HistoriAce | A presença assexual na comunidade LGBTQIA+ ao longo da história e atualidade

Escrito por Lori A. | Revisado por Narciso

Não é incomum para nós, assexuais, ouvirmos que: “assexualidade é invenção da internet”, “assexualidade é coisa de adolescente”, “assexualidade é um conceito recente”, ou até mesmo que “não existe”, como forma de nos invisibilizar, inclusive dentro da comunidade LGBTQIA+. Realmente, se estivermos falando acerca de visibilidade midiática, debates públicos e eventos de grande porte, como a Conferência Assexual do Reino Unido, é um assunto recente e que tem crescido cada vez mais por conta da luta da comunidade. A própria criação de grupos e coletivos assexuais, seja no Brasil ou no mundo, é realmente algo mais “recente”. Coloco o termo entre aspas pois, desde a criação da primeira comunidade assexual na internet, a Heaven for Human Amoeba (HHA) em 2000, já se dão mais de duas décadas, o que não é tão recente quanto muitos fazem parecer ao repetir aquelas primeiras frases citadas.

Todavia, de forma geral, o percurso até a criação do que conhecemos hoje como assexualidade e dessas comunidades se dá desde o finalzinho do século XIX, mais específicamente quando Karl-Maria Kertbeny, lá em 1869, cria os conceitos de “homossexual”, “heterossexual” e “monossexual”, impulsionando o surgimento dos primeiros estudos sobre sexualidade dentro da sexologia. Mas o que isso tem a ver com a assexualidade? Esses que Kertbeny chamava de “monossexuais” eram as pessoas que apenas se masturbavam, sem se envolver em relacionamentos sexuais com outras pessoas. Não é propriamente o termo “assexual”, nem uma definição que utilizamos hoje em dia para descrever a vivência assexual, porém é um exemplo de que, nos primeiros momentos que surgem estudos sobre sexualidade humana, já se considerava a possibilidade de pessoas que não demonstravam interesse em relações sexuais com outras pessoas. 

Posteriormente a Karl-Maria Kertbeny, temos diversos estudos e menções do termo assexual que nos ajudam a compreender o processo de construção dessa identidade com a qual  hoje tantos de nós nos identificamos. Porém, hoje, em homenagem ao Dia do Orgulho LGBTQIA+, vamos nos ater nesse texto apenas ao que diz respeito à presença assexual em ambientes queer e no ativismo LGBTQIA+ ao longo da história. 

É importante considerar que os acontecimentos aqui citados são majoritariamente centrados no ocidente, já que não encontramos muitas fontes em Inglês, Espanhol e Português que tratam da assexualidade no oriente. Apesar disso, deve-se ter plena noção de que, da mesma forma que todas as sexualidades e identidades de gênero existem na história de países ocidentais, essas vivências documentadas também existem em países orientais. Inclusive, é provável que existam documentos sobre experiências assexuais na história de outras culturas, mas que ainda não foram localizados e traduzidos ou que usem outros termos e nomenclaturas que não “assexual”.

Uma viagem para o século passado

Buscando pelo termo “assexual” em fontes acerca de figuras históricas LGBTQIA+ e jornais queer do século XX, apesar de demandar muita dedicação, é possível encontrar menções ao termo desde 1907. Carl Schlegel, um dos primeiros ativistas gays dos EUA nesse exato ano, já incluía a assexualidade em um de seus discursos pedindo por direitos igualitários para pessoas queer.

“Deixe as mesmas leis para todos os estágios intermediários da vida sexual: os homossexuais, heterossexuais, bissexuais, assexuais, serem legais, assim como já é a existência dos heterossexuais.”

(Schlegel, 1907)

Dando um salto para os anos 50, quando os movimentos queer já estavam bem mais presentes, inclusive nas mídias — principalmente em jornais independentes fundados pelos próprios grupos já articulados, as menções à assexualidade dentro do movimento também se tornaram mais frequentes. Em 1952, a revista Transvestia, de Los Angeles, fundada por Virginia Prince e focada em um público crossdresser, trans e travesti, cita a assexualidade em um texto sobre as diversas possibilidades de vivências de sexualidade de pessoas trans. Defende-se que, enquanto muitas pessoas trans são heterossexuais, algumas também podem ser assexuais. 

É um ponto de vista muito interessante de ser analisado, tanto pela inclusão da assexualidade nesses debates já naquela época, como pelo lembrete necessário de que pessoas heterossexuais também sempre estiveram nesses espaços, além de que a luta não é só em nome das sexualidades homoafetivas ou pelo “direito de amar” pessoas do mesmo gênero.  É principalmente sobre o direito de viver com respeito e dignidade, expressando qualquer que seja seu gênero e sexualidade. 

Essa mesma revista, em 1965, volta a abordar a assexualidade em um texto, publicando uma descrição que é considerada a primeira menção da assexualidade enquanto espectro de identidades, e não uma experiência unitária, ao chamá-la de “A-sexual Range”. Cinco anos depois, em 1970, outro jornal de pessoas trans, o Trans Liberation Newspaper também inclui a assexualidade em um texto:

“O Trans Lib inclui travestis, transsexuais e hemafroditas* de qualquer manifestação sexual e de todos os sexos – heterossexual, homossexual, bissexual e assexual.”
*atualmente o termo usado é intersexo ou intersexuais

Ainda na década de 70, temos uma situação um tanto quanto curiosa. Em 1971, o jornal The Village Voice acidentalmente acabou levantando discussões sobre a assexualidade como identidade e dando espaço até mesmo para desabafos em uma matéria cuja intenção inicial era ser uma paródia. O texto nomeado “Asexuals Have Problems Too!” (Assexuais têm problemas também!) foi construído com base em uma chamada para que os leitores enviassem cartas cômicas para o jornal, porém alguns dos conteúdos eram desabafos de experiências reais. Se o texto final publicado é mais satírico ou sincero fica a cargo da interpretação pessoal! (Eu, pessoalmente, creio ser mais pra sátira…)

Chegando em 1973, temos uma das fotos mais conhecidas na comunidade assexual quando o assunto é o passado da assexualidade. A foto é da edição de fevereiro/março da revista Off our Backs, mas deveria ter saído no artigo Your Own Label de Frances Chapman, da edição anterior. No artigo, Chapman descrevia a assexualidade como

“Uma orientação que diz respeito a um parceiro que não vê sexo como essencial, e sexo como não essencial para satisfazer um relacionamento.” 

A famosa foto era um registro de um evento de ativistas da Barnard College, na qual é possível ver o termo “assexual” em um quadro que indicava diversos “rótulos” a serem escolhidos pelas pessoas que estavam no evento se definirem. 

Nessa mesma época em que o ativismo LGBTQIA+ se via cada vez maior e mais presente, surgiram os famosos zines, que sempre foram uma importante forma de dar voz aos grupos marginalizados. Por serem produções independentes e feitos em menor escala com materiais mais baratos, além de não serem oficialmente registrados, muitos acabam se perdendo com o tempo, mas alguns pesquisadores que estudam especificamente os zines, como a pesquisadora e fundadora do Ace Zine Archive — que já conta com mais de 100 zines, Olivia Montoya, os resgatam e possibilitam que sejam acessados ainda hoje em acervos. Como o nome de seu arquivo indica, Montoya estuda especificamente a presença assexual nos zines. Em entrevista,ela diz que os zines são “o fóssil dessa comunidade”, já trazendo conteúdos que fazem referência a experiências assexuais desde os anos 70. 

Em 1973, uma zine lésbica chamada Lavender Woman fez a seguinte citação em uma de suas edições:

“Eu quero que nós afrouxemos nossa definição de lesbianismo para que bissexuais, assexuais e recém-chegados possam ser aceitos em comunidades lésbicas sem ter que se provar dignos de confiança na cama ou em qualquer outro sentido.”

Assim como para toda a comunidade LGBTQIA+, muitas pessoas assexuais também começaram a explorar suas identidades através dos zines. Montoya diz ter identificado que nos anos 80 e 90 muitos zines punk tinham como público pessoas assexuais, como os zines “riot grrrl”. Além disso, a editora da zine “Prude”, Lauren Jade Martin, fala em entrevista para o Them. (2019)sobre ter começado a pensar a assexualidade como uma identidade para si em 1996. Ela diz que “[Zines] eram espaços de explorar e descobrir coisas, era a era da exploração e de usar mídia DIY (Do It Yourself) em busca de encontrar uma comunidade” e que a assexualidade era incluída na cultura de zines queer, além de que várias identidades sem ser a assexualidade estrita, como a demissexualidade e a arromanticidade, já eram citadas em zines na época, apesar de ainda hoje não possuírem muita visibilidade.

Já mostramos menções da assexualidade em artigos, discursos, jornais e zines, mas a história não é constituída apenas de conteúdo “formalizado”. Na esfera mais informal e afetiva, a assexualidade também se mostrou presente na comunidade LGBTQIA+ no século XX em uma luta de “solidariedade” com a bissexualidade. Até hoje as duas comunidades são bastante unidas, e podemos ver memes sobre isso dentro de espaços ace e bi ou mesmo parcerias entre coletivos, como o Coletivo AbrAce — primeiro coletivo assexual brasileiro, que já produziu conteúdos em parcería com o Canal das Bee, voltado para a visibilidade bissexual. 

Arte por Rowan Hampton

Mas de onde veio essa brincadeira com a “Solidariedade Bi-Ace”? Pode-se dizer que, com o crescimento dos movimentos de libertação gay no início do século XX, elevou-se uma demanda pela inclusão de pessoas que fugiam da homossexualidade e heterossexualidade nos debates acerca das sexualidades. Algumas dessas pessoas levantavam a máxima “not straight, not gay” (não hétero, não gay), abarcando junto nessa definição todas as multissexualidades (bissexualidade, pansexualidade, polissexualidade e omnissexualidade) e também a assexualidade— mais especificamente a assexualidade estrita, uma vez que naquele momento não se falava tanto em espectro assexual como temos hoje.

E em outros pontos de vista dessa perspectiva histórica, que não o da comunidade LGBTQIA+, como pelas lentes do feminismo e principalmente pela ciência, a assexualidade também era muitas vezes colocada sob a mesma definição e/ou categoria que a bissexualidade em pesquisas, livros e artigos. A famosa Escala Kinsey, uma das primeiras escalas desenvolvidas para estudos sobre sexualidade, originalmente colocava ambas  as sexualidades em uma mesma área ampla entre a homossexualidade e a heterossexualidade, como se existisse uma linha com esses dois extremos e um amontoado de gradações no meio. Compartilhando pontos de partida semelhantes, acaba surgindo então essa solidariedade entre  as duas comunidades para constituição de uma luta conjunta.

“Muitos respondentes bissexuais descreveram bissexualidade como uma potencial ou como uma essencial qualidade que muitas pessoas possuem, mas que apenas algumas pessoas expressam através de sentimentos de atração ou comportamento sexual. De acordo com essa definição, pessoas podem ser – e são – bissexuais sem nunca experienciar atração por um ou outro sexo, e sem nunca ter relações sexuais com um ou outro sexo.”

Bisexuality and the Challenge to Lesbian Politics (Paula Rust, 1995)

Retornando aos anos 70, 10 anos após o levante de Stonewall, quando Masha P. Johnson e tantas outras ativistas trans e queer lideraram uma rebelião contra a polícia repressora,  o que foi um grande ponto de virada para que hoje nós possamos ter boa parte dos direitos que foram conquistados e se mantém na base de muita luta e resistência, temos também a elaboração de movimentos próprios e criação de comunidades para identidades específicas desse amplo universo “queer”. A definição de bissexual deixa de ser uma espécie de “termo guarda-chuva” para definir especificamente pessoas que sejam atraídas por multiplos gêneros, o que faz com que as pessoas assexuais também tenham que correr atrás da criação de uma identidade mais própria. Anteriormente, bissexual era esse termo que abarcava todas as sexualidades fora do dualismo hetero/homossexual, porem hoje usamos “multissexuais” para se referir a bissexuais, pansexuais, omnissexuais e polissexuais como conjunto e “monodissidentes” — no sentido de tudo que não seja atração voltada para um único gênero — para se referir a todas as identidades multissexuais + assexuais como conjunto.

Falando em termos guarda-chuva, o próprio termo “gay” também era considerado não uma identidade específica, mas sim uma palavra que descrevia todas as minorias sexuais e de gênero. É nos anos 80 quando surge a necessidade entre lésbicas para a criação de uma luta própria, com um recorte mais específico de uma experiência homossexual feminina, fazendo com que , pouco a pouco, gay torne-se um termo mais associado com a identidade homossexual masculina. Com esse cenário, os anos 80 e 90, principalmente, acabaram então sendo um momento mais focado no fortalecimento de identidades mais específicas e que descrevam experiências mais “recortadas”. Apesar da bissexualidade nesse momento já estar estabelecida enquanto uma identidade própria, é só em meados dos anos 90 e início dos anos 2000 que as identidades antes aglutinadas à bissexualidade começam a se estabelecer como comunidades em si, incluindo a assexualidade, que já sabemos ter tido a sua primeira comunidade oficialmente conhecida fundada no último ano do século XX.

Retornando à atualidade

Para falar do momento atual não precisamos nos prolongar muito, afinal, vivemos o presente momento e podemos ver com nossos próprios olhos, ou ouvir com nossos próprios leitores de tela, o que se fala sobre assexualidade e o que pessoas assexuais estão falando. Todavia, para fins de historicização e para levantar reflexões, é importante pontuar algumas situações. 

Algo que é inegável é que a comunidade assexual tem crescido muito, alcançado (mesmo que a passos de tartaruga) maior visibilidade e ocupado espaços na mídia, nos ambientes acadêmicos etc. Porém, como foi dito, isso tudo tem sido um processo lento, mesmo que cresça exponencialmente. Em 22 anos, desde a criação da HHA, diversos outros fóruns, blogs, sites e espaços virtuais foram criados em diversos países ao redor do mundo. 

A internet é um grandíssimo aliado e facilitador nos processos de acolhimento e descoberta de pessoas LGBTQIA+ hoje em dia, mas também é fundamental a criação de projetos, coletivos e outros na esfera do “mundo real” (entre aspas, pois o “mundo virtual” também é bastante real, apesar de não ser palpável). No Brasil, temos alguns poucos grupos que marcam encontros de pessoas assexuais, mas projetos em si nessa esfera do contato interpessoal físico, infelizmente não temos nada muito notável. Isso é algo que ainda estamos conquistando, assim como muitas outras coisas que ainda estamos correndo atrás de alcançar. Enquanto isso, é fundamental para pessoas assexuais o acesso e respeito dentro de espaços mais amplos, focados na comunidade LGBTQIA+ em geral,  no entanto,muitas vezes não nos sentimos confortáveis neles. 

Sabemos que seremos recebidos com estranhamento, afinal, também somos “estranhos”, “queer”, mas ainda somos “esquisitos entre os esquisitos”, se assim posso dizer. E esse estranhamento, apesar de não ser necessariamente algo ruim, ainda permanece sendo negativo na maioria das vezes, nos inviabilizando de ter conforto e acolhimento que esperávamos ter nesses ambientes. O apagamento das identidades assexuais — e arromânticas mais ainda — nos espaços LGBTQIA+ é provavelmente uma das principais barreiras que tentamos combater, antes mesmo de pensarmos em reconhecimento e respeito por parte de pessoas cis, hétero e alossexuais. 

Mas esse apagamento, esse estranhamento, essa “exclusão entre os excluídos” não se dá por motivos individuais, não é “culpa” de determinado grupo, não tem como “vilão” as pessoas LGBTQIA+ alossexuais. É uma questão muito maior, com uma base estrutural bem mais ampla; diz respeito às normas (alonorma e amatonorma) tão enraizadas em nossa sociedade, diz respeito à negligência de órgãos como o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que ao construir seu primeiro censo acerca da população LGBT+ exclui não somente assexuais como pessoas transgênero, travestis, intersexo, dentre outras. 

Ainda temos, enquanto pessoas assexuais E LGBTQIA+, uma longa história a construir e que provavelmente nunca terá fim, mas que caminha rumo a um percurso mais agradável e verdadeiramente alegre, como significa a própria palavra “gay”. Entretanto, enquanto ainda estamos aqui, precisamos enfatizar para não esquecermos jamais: assexuais sempre existiram e estiveram presentes na comunidade LGBTQIA+ como parte desse movimento, não como aliados.

Para você, assexual, que está lendo esse texto e que, provavelmente, vai mandar ele para uma galera que, provavelmente, segue repetindo aquelas frases depreciativas citadas lá no início: pegue sua fatia desse grande bolo assexual e vamos juntes nos orgulhar da nossa trajetória histórica!

(Está mais do que liberado usar esse post de carta de combate contra acefobia!)

Referências Adicionais:

Leia mais:

Esse artigo foi fruto de um longo processo de pesquisas, leituras e traduções de conteúdo encontrado em diversos blogs, fóruns e sites sobre assexualidade e história da comunidade LGBTQIA+. Apesar disso, acho importante frisar que alguns fatos e informações podem não estar presentes nesse texto, tanto pela evidente dificuldade de acesso a essas informações, como pela possibilidade de aparecimento de novas fontes com mais conteúdo e novos achados sobre esse tema, os quais  podem vir a surgir após o momento que esse texto foi publicado. Peço, então, para que, caso vocês leitores tenham novas fontes e informações, entrem em contato pelo e-mail do Aroaceiros (aroaceiros@gmail.com) para que o post eventualmente seja revisto e atualizado.

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